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A festa dos santos gêmeos

Setembro é mês de São Cosme e Damião, os ‘santos meninos’, de fazer oferendas, pagar as promessas e dar balas e doces às crianças. A crença faz parte de muitas religiões, não apenas da Católica

Texto escrito por Nanna Pretto, mãe de Gabriel e grávida de Rafael e Nádya Argolo, mãe de Nanna, Tess e Bia

“São Cosme mandou fazer, duas camisinha azul, no dia da festa dele, São Cosme quer caruru.” Desde que eu me entendo por gente, setembro lá em casa é assim. Mês de Cosme e Damião, mês de comer Caruru, de pagar promessa e acender velas, colocar balas e pipoca pros santos irmãos, os ibejis (orixás meninos). 

Aliás, desde que me entendo por gente, repito, (e já tratei de explicar isso ao meu filho), a pipoca e a bala de Cosme e Damião são sagradas, não pode pegar nem comer. Deixa lá nos alguidás (combuquinhas) que eles gostam e agradecem. Na jarrinha, também de barro, ficam o guaraná ou aluá com mel. 

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Na minha terra, lá na Bahia, a crença em Cosme e Damião vai além da religião. Originalmente, a tradição católica dos irmãos santos mistura-se às oferendas do candomblé e ao pagamento de promessa (para quem pede e para quem recebe o milagre). É assim, por exemplo, com minha prima Camila, que nasceu justamente no dia 27 de setembro, e seus pais, há 32 anos, oferecem o Caruru. 

Nessa festa sagrada e profana é servido o Caruru que é uma mistura de quiabo, castanha, amendoim, camarão seco e dendê. Acompanha xinxim de galinha, vatapá, feijão fradinho e preto, farofa amarela com camarão seco frito no dendê, nacos de acarajé e abará, banana frita em rodelas, rolete de cana, arroz branco, milho branco, pedaços de abóbora e inhame, rapadura, mel e balas de mel. A iguaria é servida, inicialmente, para sete crianças -que representam os sete irmãos dos gêmeos- e, depois, para os convidados. 

Outra tradição do Caruru é que a quantidade de quiabo varia de acordo com a promessa feita (podendo chegar a milhares) e deve ser cortado miudinho por quem está oferecendo o prato, simultaneamente, com a reza de agradecimento e pedidos de proteção. Mas, claro, que a farra do Caruru baiano já começa na cozinha (a tradição vem das senzalas onde os escravos recolhiam os alimentos desprezados pelos ‘senhores’ da Casa Grande) e hoje muita gente já ajuda o pagador da promessa, desde o preparo até a hora da festa. Afinal os santos são meninos e adoram cantos, danças e brincadeiras. 

Minha mãe, por exemplo, não nasceu em setembro, mas paga, todo dia 17 de outubro, sua promessa em oferecer o caruru “nem que seja pros sete meninos”. Mas só a família enche a casa e os muitos amigos que ela tem nunca esquecem a data.  Alias, me lembro muito de sairmos à caça de menininhos em torno da Avenida Garibaldi e em Ondina, para comerem Caruru lá em casa. 

Já meu sogro, que não faz aniversário nessa época do ano, tem o costume de fazer o Caruru de Cosme e Damião, religiosamente, há mais de 50 anos, aqui em São Paulo. A festa, que já recebeu mais de 150 pessoas, hoje é apenas para a família e netos, preparada sempre pela minha sogra, que importa os ingredientes lá da Bahia. No último domingo, por exemplo, foi dia de acender as duas velinhas miúdas e coloridas e pagar a promessa. 

Outra crença da festa do Caruru dos Meninos é que a oferenda deve ser servida inicialmente aos santos, e por quem está pagando a promessa, em pequenos alguidás de barro, depois aos sete meninos (mas hoje meninas também podem fazer parte do grupo) e só aí aos convidados. 

E falando em convidado, também não se pode negar um prato de caruru. Por isso que essas festas, pelo menos lá na Bahia, são sempre fartas e cheias, afinal não tem cerimônia de ser convidado. Basta chegar no caruru do amigo do amigo, que você será sempre bem vindo. Pelo menos é o que a tradição diz. 

Quem São Cosme e São Damião?

Cosme e Damião nasceram na Arábia, no século III, filhos de uma família nobre. Estudaram medicina na Síria e depois foram praticá-la em Egéia. Circunstancialmente, entraram em contato com o Cristianismo, tornando-se fervorosos seguidores. Confiando sempre no poder da oração e na providência divina usaram a medicina para curar os necessitados. Não cobravam por seus serviços médicos, e por esse motivo eram chamados de ‘anárgiros’, ou seja, aqueles que não são comprados por dinheiro.

Quando se comemora?

A festa para os irmãos gêmeos é celebrada no dia 27 de setembro tanto pela igreja católica como pelas religiões afro-brasileiras. É dia de festa na Bahia e se vê muitas crianças andando pelas ruas de Salvador à espera dos quitutes (hoje em dia mais distribuídos em quentinhas). Por serem considerados protetores das crianças fazem com que as pessoas distribuam doces e pipocas nas ruas, creches e escolas para homenageá-los ou pagar suas promessas. 

E se no seu prato tiver um quiabo….

Além das missas celebradas na Igreja de Cosme e Damião, na Liberdade, os terreiros de candomblé batem seus atabaques, entoam cânticos e estouram fogos por todo o dia, além de servir Caruru para todos. É dia de vestir branco, porém ninguém sai limpinho como chegou: leva sempre em suas vestes umas gotinhas de dendê, presentinho dos santos. E se, ao servir a comida em seu prato, vier um dos sete quiabos que são colocados inteiros na panela do Caruru, fica a sua obrigação de, no próximo ano, oferecer um Caruru… e assim esta festa não tem fim.

 

 

 

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