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A dor do adeus

Se despedir do animal de estimação é triste e dói. Esse foi o primeiro contato do filho da colunista Nanna Pretto com a morte

Semana passada eu assisti “A Culpa é das Estrelas”, fiquei aos prantos, e me questionei muito como é lidar com a morte com crianças. A gente se prepara (ou acha que) para perder os pais primeiro (pela ordem natural das coisas), mas nunca para perder um filho. Me deu um aperto no peito e uma insegurança tamanha só de pensar em passar por isso com os meus meninos.

Fazendo um paralelo com todo esse sentimento, anteontem a nossa gatinha, de quase 14 anos, nos deixou. Nossa Lua virou estrela num domingo de calor, após o nosso almoço familiar. Não sofreu, apenas deitou e dormiu. Para sempre.

Ela me acompanhou desde que cheguei em São Paulo. Foi a minha família por muito tempo, me viu namorar, viu Gabriel nascer, o nosso casamento, a mudança de casa, viu Rafinha surgir. Ela era a outra menina da casa, geralmente a minha aliada nas brincadeiras de meninos contra menina(s).

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Gabriel tinha um carinho especial por ela, que zelava por ele diariamente. A Luluca, como ele a chamava, estava sempre por perto. Nem que fosse para beber a água do banho dele. Ou para ficar bem em frente à TV, na hora do desenho preferido.

E a despedida não foi fácil. Eu, que sempre achei que lidava bem com a questão de “animal de estimação X gente” (nunca fui a favor a humanizar os bichos e colocá-los, por exemplo, no lugar de filhos ou dar a eles a importância de gente), sofri, chorei e custei a acreditar. Mas precisei ser forte, pois no meu colo tinha uma criança de seis anos, aos prantos, abatido e sem acreditar que a nossa gatinha estava partindo para perto de Papai do Céu.

“Mas e as sete vidas dela? Por que ela não usou?”, ele se questionava. Tive que pensar em algumas situações nas quais ela pudesse ter gasto as suas vidas, como uma guerreira, para ficar todos esses anos com a gente. Não consegui todas, mas ele ficou satisfeito.

“Teremos que vestir preto? Vamos ao cemitério?”, foram algumas das perguntas que seguiram, até chegar o momento de fazer uma homenagem. Gabriel fez um desenho especial para Luluquinha levar com ela, lá para o céu. Uma folha cheia de corações, com um grande bem vermelho e, no meio, o desenho dela.

Depois pegou uma foto de todos nós, tirada instantes antes no nosso almoço em família, para colocar na caixinha. Perguntou pela coleira e pelo ratinho de brinquedo e colocamos tudo na caixinha da Lua. Ele fez carinho, chorou, choramos, nos abraçamos e enfim, saímos. Ele para a casa da vovó, e nós para o veterinário, onde ela ficou para ser cremada.

A despedida dói. A saudade ficará para sempre. Ontem, a noite foi mais fria sem a Lua aquecendo os meus pés e roubando boa parte da minha coberta. Antes de dormir comecei a recolher os tapetes de EVA do Rafinha, que ela adorava morder. Era um movimento diário, que eu repetia todas as noites. Parei e lembrei que não precisava mais fazer isso, pois ela não estava mais ali com a gente.

Gabriel quis dormir na minha cama e, mais do que ele, eu precisava daquilo. Ter que ser forte, quando tudo que você quer é desabar e chorar, para poupar seu filho de mais dor, é muito difícil. O dia de hoje, aliás, está bem difícil. Aos poucos a ideia de que não tem mais um bichinho lá no sofá de casa, ronronando preguiçosamente, ainda me incomoda.

A dor vai virar saudade, eu sei.

Lua virou estrela, está no céu com outros animaizinhos e sempre lembrará da gente, pois levou o desenho dos nossos corações com ela. Essa foi a conclusão de Gabriel, aos 6 anos.

Antes disso, ele pediu para montarmos o nosso presépio de Natal. Assim poderíamos fazer uma oração para que ela fosse em paz.

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