Colunistas

A descoberta da fé

Em viagem a Salvador, Nanna levou as crianças à missa do Senhor do Bonfim e viu o mais velho, Gabriel, ter seu primeiro contato com a fé

Eu fui batizada, casei na Igreja Católica e sempre agradeço a Deus. Um Deus não necessariamente de uma religião específica. Na verdade, eu vejo o meu Deus de asinha e coroinha, como um anjo (nunca gostei daquela imagem da cruz, com sangue. Certa vez até pedimos pra minha mãe pôr band-aid no Papai do Céu). Inclusive acredito um pouco em cada coisa. Acho que extraio de cada religião aquilo que me faz bem, que me renova, que me dá paz. Na nossa última viagem para Salvador, fomos ao Bonfim. Queria benzer os meninos e assistir à missa do Senhor do Bonfim. Sou devota dEle. Acho linda a devoção do baiano ao Bonfim. E meu filho, pelo jeito, seguirá no mesmo caminho.

“Mamãe, Senhor do Bonfim é Deus?” “Se eu uso a fitinha dele é por que ele está me protegendo?” “Essa música que você sempre chora é dele? E é para quê?”. Essas foram algumas das perguntas durante a hora que ficamos na porta da igreja, em pé e do lado de fora, tamanha a lotação da terceira missa daquela sexta-feira.

O hino do Senhor do Bonfim é, de fato, lindo. Entrei com ele no meu casamento e me arrepio toda só de escrever isso e lembrar daquele momento. Ao fim da missa, uma pequena procissão entra com a imagem do santo e todos querem tocar. O hino ecoa pela Sagrada Colina e é impossível conter a emoção. Nesse dia eu abracei forte meus filhos, minha irmã, e chorei. Chorei muito. Agradeci, não pedi nada além de saúde e paciência. E eu lavei a alma com lágrimas.

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Gabriel assistiu a tudo encantado. Ele podia se irritar, pedir para ir embora, querer sentar. Mas não. Acho que foi o primeiro contato dele com a fé. A primeira homenagem que ele pode fazer às tantas fitinhas que ele tem amarradas pelo corpo (hoje são 6, e cada uma com seus 3 pedidos, como manda o ritual).

Meu filho se emocionou, escutou o padre na hora de ser benzido, gostou de vestir branco para aquele momento. Entendeu por que são tantas pessoas com as fitinhas coloridas amarradas e por que as pessoas acreditam tanto no Senhor do Bonfim.

Entramos na sala dos milagres. Achei que ele ia se impressionar. Afinal, são fotos pesadas, pedaços de membros do corpo, esculpidos em cera, pendurados por todos os lados. Textos de imagens fortes. Ele se interessou por quase todas as fotos de criança e queria saber a história delas. Se tinham sobrevivido, qual foi a doença, com quantos anos… ele não entendeu muito o que seria milagre. Preferiu chamar de segunda vida (tipo a nossa gatinha, que teve sete.)

Tá certo, não deixa de ser.

Gabriel olhou a igreja, pediu suas fitinhas e amarrou duas na grade da escadaria. Concentrou-se, fez seus pedidos. E não contou para ninguém. Quando questionei, ele já tinha a resposta na ponta da língua:

“Você sempre conta seus pedidos. Mas isso é um segredo. Você conta porque quer. Eu não.”

Respeitei.

Saímos e tomamos chuva. Acho que faz parte do processo, da lavagem, da fé.

Meu filho tem (e sempre terá) a liberdade para escolher a religião que quiser. Desde que ele entenda que ele precisa ter fé.

Porque, como diz Gilberto Gil, “a fé não costuma faiá!”.

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