Colunistas

A copa da mãe

Numa casa só de meninos a mãe Nanna Pretto passou a amar o futebol. E, na copa, a gente ama o futebol e sofre com ele.

“Isso não é justo. O Neymar não pode sair da Copa. E agora, mamãe?” A frase foi dita na semana passada quando o país parou por conta da fratura na terceira vértebra do Neymar, causada pelo jogador colombiano. E estava embebecida em lágrimas compridas e um sentimento de dor que não cabia no meu filho. Ele se perguntava a todo instante por que o jogador fez aquilo, se eles tinham brigado, se um tinha raiva do outro. “Futebol é assim. Aliás, filho, a vida é assim. Nem sempre ela é justa.” Foi o que eu me arrisquei a dizer, afinal os meus olhos também estavam cheios de água ao ver a tristeza do meu mini torcedor. Eu passei a semana me preparando para consolá-lo caso nós tivéssemos saído da Copa naquela sexta-feira. Falaria que a seleção não jogou bem o suficiente para seguir em frente. Mas eu nunca preparei meu coração – e as minhas palavras – para lidar com a tristeza de Gabriel ao ver a imagem do seu ídolo estatelado no chão, após uma agressão em campo.

A Copa mexe com a gente. Você torce para times desconhecidos, vira a casaca no meio do jogo, viaja de uma cidade a outra para gritar por outro país. Aliás, no país do futebol, há um mês nós aqui em casa respiramos… Futebol. Mas a minha vida não para. Tenho que organizar as agendas, os horários da escola, tem dia de jogo em casa ou a ida para a casa dos amigos. Some isso à adaptação do bebê no berçário e à minha agenda do trabalho, após cinco meses de licença-maternidade. E, calma, tem mais: acrescente a possível tristeza e decepção das crianças, jogo após jogo. Que você, como mãe, tem que saber contornar.

Quem me falou isso foi uma amiga que, assim como eu, é mãe de menino e se pega gritando na sala de casa pelo time do filho. Que enfeita a varanda com bandeirinhas entre uma e outra reunião de trabalho. Que passa madrugadas em claro tentando a todo custo um ingresso no site da Fifa. E que, assim como eu, em véspera do Brasil entrar em campo, fica fritando de nervoso da cama. Por ela, pela Seleção, e pela reação do filho caso algo aconteça. “A gente sofre junto”, ela comentou numa das nossas conversas.

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A gente sofre mesmo. Lidar com o sofrimento de uma criança de 6, 7 anos, aliás, é difícil demais. Porque ali está a mais profunda dor. A mais profunda dúvida lançada para você na velocidade do chute do David Luiz. “E agora, como a gente ganha?”, pergunta ele. “E agora, o que eu respondo?”, penso eu.

A mãe que está na Copa não é apenas a mãe do juiz. É a mãe que prepara a casa, que organiza as agendas, que faz os quitutes pré-jogo, que abraça na vitória e consola na derrota. É a mãe que tenta achar razão no inexplicável. Que tenta falar da injustiça da vida para quem está aprendendo a viver. É a mãe que já se prepara, na véspera da semifinal, para caso algo dê errado.

Não vai dar. É o que aquela propaganda diz: “esquece os adultos e joga pra mim”, referindo-se às crianças. E quando o juiz apita, parece que quem entra em campo sou eu. Com um único objetivo de ver meu filho feliz, com a vitória da Seleção. E hoje não será diferente!

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