Colunistas

Palavra amiga

Quando soube do diagnóstico da Síndrome de Down, não queria ouvir nada além das sinceras e reconfortantes palavras daquela que me entendia

Quando soube do diagnóstico da Síndrome de Down da minha pequena Lorena, durante a gestação, tive muito apoio de diversos amigos e familiares. Mas, para uma amiga minha, a Larissa, fiz questão de contar logo no dia seguinte. Ela é uma pessoa que eu sabia que iria me acolher sem aquelas palavras de piedade ou frases do tipo: “será um anjinho na Terra”, “ você será  uma mãe especial” e por aí vai. Por mais que essas frases sejam de certa forma acolhedoras para as pessoas que falam, para nós que escutamos elas ferem porque não queremos que nossos filhos sejam tratados como “diferentes”. Após um tempo nos acostumamos com certos jargões de “filhos especiais”, mas logo ao diagnóstico essa taxativa fere um pouco. E eu sabia que a Larissa saberia conversar comigo mostrando a realidade como ela é, sem devaneios. E assim o fez. Conversamos muito durante minha gestação e sua lucidez nas palavras sempre me confortou na medida certa.

Outro dia pedi que a Larissa escrevesse um pequeno texto para eu publicar na minha coluna e ela carinhosamente me mandou esse lindo relato. Obrigada amiga, você fez diferença na minha vida!

“Lembro-me como se fosse hoje o dia em que atendi uma ligação da minha amiga Ivelise para me contar que a bebê que ela estava esperando nasceria com Síndrome de Down. Após escutá-la, vivi alguns instantes que pareceram horas intermináveis de angústia e com muitas dúvidas de como eu deveria demonstrar meu apoio. Nem me recordo o que falei, mas o meu espanto era tamanho que cheguei a pensar que ela estivesse brincando (?!) e ao término da nossa conversa, chorei, dentro de um silêncio atormentador. Fiquei atordoada, desorientada, sem nada “bom” para falar para uma amiga tão querida! Justo eu, tão segura, tão cheia de argumentos, médica (como se isso abrisse o “Portal da Sabedoria”).

Anúncio

FECHAR

Somente meses depois, lendo o Blog da Carol Rivello (Nossa vida com Alice), mãe de uma linda criança com SD, pude definir melhor esse momento, pois assim como ela, quando ficou sabendo do diagnóstico da sua pequena, eu tinha uma sensação que estava dentro de um carro andando sem rumo, com um GPS berrando: RECALCULANDO… RECALCULANDO… RECALCULANDO… RECALCULANDO…

Fiquei por muito tempo nessa situação, até que um dia, a minha filha de nove anos leu os relatos da Ivelise no Facebook que diziam respeito aos inúmeros comentários das pessoas que sugeriam ou falavam abertamente sobre a possibilidade de aborto, e:

-Mãe o que é essa coisa de aborto?

– Filha, é um procedimento no qual o bebê é tirado da barriga da mãe antes da hora (Ah…como explicar isso….)

– O bebê nasce antes?

-Não. O bebê morre.

-Por que as pessoas falam isso para ela? (com cara de horror!)

-Porque a sua bebê tem Síndrome de Down.

E após explicar e mostrar fotos e descrição de crianças com Síndrome de Down, ela falou:

– Mãe, não importa se a bebê da Ivelise tem isso, ela também poderia nascer sem cabeça (!!), sem pé, de qualquer jeito. O que importa é que é filho, não é mãe? Tem o filho, tem que cuidar, tem que gostar. O importante é que será a bebê da Ivelise!

Nesse momento, fui recolocada na “rota certa” e olhando para a minha outra filha com poucos meses, vi realmente que não importava nenhuma síndrome e sim que a pequena Lorena iria nascer e seria um bebê encantador como qualquer outro e, hoje, após acompanhar todas as dificuldades, superações e alegrias da minha amiga, vejo que esse fato se confirma a cada dia!”

Na foto, lindas: Larissa com a pequena Lorena no colo/crédito da foto: Daniela Leme

Pais&Filhos TV