Colunistas

O dia depois de amanhã

A colunista Ivelise Giarolla fala sobre o ciúme da filha mais velha com a menor, que tem Síndrome de Down

Quando tive a minha primeira filha, não tinha a menor pretensão de ser mãe novamente. Estava plenamente realizada com uma filha única e nunca gostei da sensação de estar gestante, porque tive de tudo: vomitei horrores, tonturas intermináveis, cefaleia o tempo todo, refluxo, enfim, nada agradável. Mas, quando a Marina estava com 18 meses, passei por uma cirurgia e houve uma descompensação hormonal da pílula por causa das medicações. Então, de repente, estava grávida de novo! “Meu Deus” pensei. “Socorro… Tudo de novo não!” Mas ela estava ali, dentro do meu útero e logo já foi imensamente amada e desejada. Sofri tudo de novo: vomitei horrores, tonturas intermináveis, cefaleia o tempo todo, refluxo e, além disso, soube que a pequena nasceria com Síndrome de Down, o que tornou a gestação ainda mais estressante.

Ao nascimento da segunda, um super, hiper, mega ciúmes acometeu a primogênita (como relatei em minha coluna). Foram momentos difíceis que vivi. Desespero total anunciado. Descabelei, descompensei, desestruturei, perdi o controle. Ciúme entre irmãos é pior que qualquer outra coisa, pior que desfralde, acordar pra amamentar de madrugada, convencer a largar a chupeta, pior que tudo. Nada que fazemos adianta, tudo é motivo de choro e birra. Caos total diário e ininterrupto.

Como diz o ditado: depois da tempestade vem a calmaria. Então volto hoje para relatar o “Day after”. Acredito que o ciúme sempre vai existir, mesmo porque, penso que seja um sentimento inerente ao ser humano. Porém, ele ameniza muito com o passar do tempo. A Lorena agora senta sozinha sem apoio e interage bastante com brinquedos, sons e movimentação ao seu redor. Assim, não necessita mais tanto o colinho da mãe, um dos maiores motivos dos ciúmes da Marina. Além disso, as duas estudam na mesma escola e estão inseridas em uma mesma rotina, o que facilita bastante o entendimento da mais velha. Várias vezes levo a Marina às sessões de fisioterapia da pequena e explico as necessidades que a Lorena exige (inclusive falo abertamente sobre Síndrome de Down). No momento, mesmo com as birras que ainda ocorrem, a mais velha já entende que “após o banho da menor, vem a atenção da maior” e por aí vai. 

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Felizmente, uma interação maravilhosa tem se estabelecido entre as duas. Uma completa a outra. As duas se adoram e é um tal de “Lorena linda”, “Minha Lorena”, “Lorena é fofinha”, “Eu adoro a minha irmã”, elogios sem fim. E, para minha grata surpresa, a Marina já tem ajudado muito nas estimulações necessárias pela Síndrome de Down da irmã. Do jeito dela, mas ajuda. Sem contar o projeto de fala: se depender da mais velha a pequena será locutora de rádio. Mês que vem as duas começarão aulas de música em uma mesma escola e acredito que será uma experiência bárbara para elas (prometo que volto para contar).

O antigo “show de horror” que vivi se foi. Hoje vivo tempos felizes e fico muito satisfeita, orgulhosa e extremamente agradecida da vida ter me dado duas filhas. Minha decisão de ser mãe de filha única foi modificada por ordens maiores, mas não me vejo sem as duas e sei que elas não saberão viver uma sem a outra. Tenho essa certeza pela troca de olhares entre elas, porque vejo o amor sincero. Um amor que demonstra inatingível beleza, sem falhas e de características admiráveis, cujas qualidades excedem o comum. Amor que se encontra, acima de tudo, que transcende o humano, que incita comportamentos e ideias de teores nobres. Amor que se apresenta de modo grandioso, através das atitudes e sentimentos. O mais elevado grau de beleza ou perfeição. Amor simplesmente sublime. 

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