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Pedro e a alma humana

Para a psicóloga Ana Guedes, a melhor psicanalista que existe é a criança. Ela diz a verdade, é corajosa, escuta o coração

A clássica definição de inconsciente de S.Freud nos diz:

 “O inconsciente abrande tanto atos que são meramente latentes, temporariamente inconscientes, mas que em nenhum outro aspecto diferem dos atos conscientes; e por outro lado abrange processos tais como os recalcados, que caso se tornassem conscientes, estariam propensos a sobressair num contraste mais grosseiro com o restante dos processos conscientes” (Freud, 1915).

Aprendi, em 10 anos de estudo, a compreender melhor este estado chamando-o de alma humana.

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Depois, de Pedro.

O Pedro, agora com 5 anos, fala pelos cotovelos. O que acho ótimo.

Diz absurdamente tudo o que pensa, tudo o que sente, tudo o que quer saber, e mais, tudo o que eu não sei que penso. E ainda me consola.

O Pedro é o melhor “psicanalista” que conheci na vida, e juro, não foram poucos em 38 anos de filha, neta, e agora mãe.

A criança, por sorte, até determinada idade, não conhece o que outro grande nome da alma humana chama de “Moral Escravizante”. Sim, Friedrich Nietzsche sabia mais sobre as crianças que Freud, em minha opinião. Recomendo a leitura difícil, pois nada na vida que seja bom é fácil.

Aquilo que sinto, penso, escondo de mim ou sofro em silêncio, Pedro desvenda na hora do banho, na hora em que busco ou levo ele na escola, na hora de dormir. Nos nossos silêncios.

Pedro, como toda criança, tem a verdade estampada na cara, o que incomoda muita gente, mais do que aqueles elefantes todos.

E por ironia da vida, falta de paciência da nossa parte, ou mesmo medo, eles começam a revelar suas verdades justamente na hora em que erroneamente acreditamos estarem precisando ser “educados”.

Ou seria escravizados?

– Meu filho, não pode falar isso na frente da vovó; meu filho, não pode dizer que a babá é uma chata; meu filho não pode, não pode, não pode.

Pode.

Porque poder dizer e falar é não adoecer da alma. A alma sai pela boca, ou, se trancada no peito, vira dodói.

Vejam bem por seus bichos papões e almas penadas.

Mas tem jeito de se falar, é claro, modos de se dizer a verdade sempre são melhores que manobras para se mentir.

O assunto é difícil, eu sei.

Cada um deve encontrar seu jeito para conversar e compreender a linguagem clara e óbvia de uma criança, mas alerto, é mais difícil que a leitura que sugeri.

O simples é de extrema dificuldade de compreensão e muitas vezes altamente irritante! E as crianças são bem mais simples do que pensamos.

Apenas nos peço, a mim e a você, um favor:

Escutemos nossos filhos.

Eles sabem mais, do que nós, sobre o que nós acreditamos que sabemos.

Eles têm mais coragem que nós. Não os ensinem a temer.

Eles sentem mais do que nós. Não os ensinem a não escutar seu coração e seguir a sua razão.

Eles pensam mais simples do que nós, não dificultem seu pensar.

Peça ajuda a seu filho para voltar a ser um pouco mais criança, um pouco mais livre, e não ter tanta razão.

A razão cala o sentir, abafa a emoção.

Que possamos aprender a reencontrar a emoção, a emoção é a voz da alma.

E a alma, uma criança.

Peço eu, por nós e por eles, ajuda ao poeta, já que, grande poeta, pequena criança é:

                           

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

 

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar,

 

Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim”

Fernando Pessoa

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