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Achados na selva

Julho. Primeiras férias de inverno do Pedro que, antes frequentava a escolinha.

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Clima no momento: Primeira semana de férias, chuva torrencial. Segunda semana, Fernanda Abreu em Rio 40 graus. Verão.

– Mãe, de que  adiantam férias se eu tô trancado em casa e não vamos viajar?

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Pedro, são férias de inverno. A mamãe tem que trabalhar, depooooois vem a praia. Não é verão, parece mas não é!

-Mãe, no inverno não faz calor! É verão! Não?

– Parece Pedro, mas…

Ok. Vamos para a praia, uma semana.

Não. De quinta a domingo. Tudo sob controle. Reviso o carro, marco a pousada, vamos para Santa Catarina, 27 graus…

Pousada segura, estrada duplicada, levo roupa de inverno, roupa de verão, levo caniço e ipad, tem dvd no quarto no carro, a praia eu conheço desde adolescente. Não pode ter mudado tanto. Nada pode acontecer.

Sim, a babá, férias.

Eu, feriado.

Nós no carro.

400 km. 5 horas, 5 anos, tudo sobre controle. Se ele quiser bolachinha, água, xixi, trocar o dvd, tirar a casca da maçã ou me perguntar de 5 em 5 minutos se já chegamos, é só parar o carro. Se furar o pneu tem o SOS. A única coisa que eu precisava era ir junto. Fomos.

Sou uma mulher corajosa, resolvida, moderna e um pouco mentirosa. Pouco.

O Pedro, está acostumado a passar suas férias em uma praia com uma boa infraestrutura. Uma praia mais urbana eu diria, embora adore a beira do mar, temos por lá asfalto, cinemas, e todo um charme, segurança, companhia, amigos, e a 750 km de casa. Bobagem.

Resolvi leva-lo literalmente para a selva.

Pensei: Já que vou encarar um jacaré que eu possa mostrar um crocodilo!

A viagem foi ótima! Colamos juntos o aerofólio do carro que eu não havia visto frouxo, levamos horas até chegar a praia, e surpresa!

Cabana, mata, trilhas, lagoas mar, do norte, mar do sul e baleias!

Nos divertimos horrores, chegamos de tarde, descemos a trilha, banho de lagoa, falta baldinho, compra baldinho, falta redinha, compra redinha.

Pizza.

Temos! Há 8 km, pizza! Beleza! Chão batido pizzaria,surfistas amigos da década de 90…

Casa, banho, pousada, mãe exausta de estrada de sol de baldinho, de areia de lagoa, de medo…

Medo? Nunca pensei.

Eu sozinha numa estrada com uma criança de 5 anos no carro, passando 5 dias na praia da minha adolescência (com todo aquele kit que minha mãe pedia pra eu levar e nunca levei).

Medo? Do que?

Eu me viro, baita mãe, lavo, dou banho, levo busco, esfrego, compro estrago concerto…

E minto. Um pouco.

Eu tava morta. De medo. E ele também

Nana nenen, que a cuca vem pegar, vovô na outra praia, vovó foi acompanhar…Babá tá de férias e papai foi passear.

Silencio na mata, gato mia no escuro.

– Mãe, parece um tigre!

– Não olhei na varanda, vai que fosse.

Mãe… Sabe, eu as vezes assim quando não tem nada pra fazer, fico triste,e aí penso coisas boas, mas sempre vem uma mensagem ruim, um susto sabe mamãe?

Sei.

E senti, e doeu, e doemos e dei graças aos meus medos de pegar a estrada com ele, as bolachinhas, o aerofólio, o pneu que podia, e o que não podia. E a todas as minhas já falsas mentiras.

Dei graças e sorrisos a todos os nossos medos que no silencio da mata e no barulho do mar, (que meu filho achava que poderia ser um vulcão, e talvez fosse) apareceram e falaram conosco.

Nos contaram verdades que habitam cavernas, selvas e mares.

E por dois pares de noite nos tornaram para sempre mais verdadeiros.

Falíveis, sofríveis e humanos. Felizmente humanos.

Pois a vida meu amor, parece, mas não é.

E eu, às vezes minto. Mas pouco, muito pouco e agora muito menos.

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