Colunistas

A princesa, o príncipe e as ervilhas

A psicóloga Ana Guedes fala sobre a importância da brincadeira na rua para as crianças

Crianças precisam de espaço.

Ontem encontrei uma querida amiga de infância que, ao me apresentar para outra amiga, disse:

 – Esta é a Ana! Minha amiga da rua!

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Sim, eu e a Maria Fernanda fomos amigas desde pequeninas, e de rua!
Jogávamos bola com nossos irmãos mais velhos, brincávamos de boneca e tínhamos até um clube na casa da minha avó, na rua debaixo, onde, pasmem: íamos caminhando!

Éramos amigas de rua.

Fiquei pensando que este título desapareceu ou foi trocado pelos amigos do condomínio.

O infelizmente do inevitável:

Desarmamento infantil.
Tiraram a rua e a bola, a corda de pular, o elástico e a árvore.
Uso estritamente domiciliar.

Mas a necessidade de espaço segue a mesma.

Impossibilitada por razões sociopoliticoeconômicas de proporcionar rua para o Pedro, viemos para um apartamento.
Grande. Quase uma quadra pra duas ervilhas.
Temos espaço.

O Pedro ganhou um quarto novo, e um quarto de brinquedos para receber os amigos.
Eu, um quarto e algumas salas sem muita mobília, por enquanto.

Ele se sente um príncipe, corre pelos cômodos, atravessa vãos, anda de patinete no corredor.

Eu, a ervilha, escrevo esta coluna sentada por enquanto no chão, enquanto a mesa de trabalho não chega.

Ele respira, eu suspiro!
Corro pra ver se ele está onde meus olhos não podem alcançar. Decifro barulhos e descubro silêncios.
Décimo-quinto andar.
Muito longe da rua.

Mas crianças precisam de espaço.

Fico contente de ver meu pequeno príncipe ervilha no meio de tanto espaço, mesmo sentada no chão.
Mas me pego pensando…

E a rua?

Espaço é tempo, já disse Stephen Hawking. Mas a rua, senhores governantes…

É saúde.

Então venho, por meio deste, lhes fazer uma prece:

Devolvam a rua para nossos filhos. E que as armas se tornem bolas, elásticos e, quem sabe, árvores.
Assim, talvez possamos um dia seguir Chico Buarque em seu desejo:

“Mas não, mas não
O sonho é meu e eu sonho que
Deve ter alamedas verdes
A cidade dos meus amores
E, quem dera, os moradores
E o prefeito e os varredores
Fossem somente crianças”

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