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Trabalho e família: quem não vive este conflito?

Nossa colunista Ligia Pacheco fala sobre o risco de delegar as responsabilidades da paternidade a terceiros

O filme Corações em conflito, de Lukas Moodysson, trata de tema muito comum a nós, pais: o conflito entre profissão e família. Conta a história de um casal bem sucedido em Nova York. Ele (Gael Garcia Bernal) é o criador de um website de sucesso e viaja mundo afora. Ela (Michelle Williams), uma ocupada cirurgiã que dedica o seu tempo a salvar vidas. A filha de 7 anos (Sophie Nyweide) tem como grande referencial a babá filipina (Marife Necesito), que deixou seus dois filhos em seu país de origem para ganhar a vida na América e garantir um bom futuro para eles. Mas uma série de reações em cadeia traz consequências a todos, os forçando a reverem as suas prioridades. 

Esta é, de certa forma, a história da maioria de nós. Não defendo o abandono das profissões, nem creio ser isto saudável, nem para nós e nem para os filhos. É bom, entretanto, fazer adaptações e abrir tempo para eles. Afinal, hoje sabemos como a presença dos pais traz enormes benefícios ao desenvolvimento da criança. Vejamos alguns pontos de reflexão. 

1. Presença: No filme, a crise da mãe se inicia quando ela percebe que a criança prefere a babá. Faz várias tentativas de reconquista, mas não será fácil. O fato, é que a criança levará para a vida não os presentes, mas a presença (ou não) dos pais com seus ensinamentos, seu afeto, seu amor, sua dedicação. E é bom lembrar que estar junto não significa estar presente. 

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2. Afetividade: O desenvolvimento emocional acontece nos primeiros anos da vida. Ao cuidar do bebê, pais demonstram atenção, tocam, consolam, passam a sensação de segurança, todos elementos essenciais a um bom desenvolvimento. Serão base a programas mais complexos que ajudam o cérebro a responder de maneira equilibrada a situações estressantes ao longo da vida. O hoje dizendo do amanhã! 

3. Estímulos: Por sorte, a babá do filme é excelente. Amorosa, carinhosa, responsável, estimula bem a criança ainda que a partir de suas referências e cultura – nem sempre temos esta sorte! Uma estimulação sensorial positiva e de qualidade no início da vida, influencia a aprendizagem e o comportamento futuro, pois fortalece e aumenta as conexões neuronais, possibilitando um bom desenvolvimento cognitivo, o equilíbrio das emoções e a capacidade de responder positivamente a novas experiências. E é preciso saber estimular! 

4. Futuro: Privar a criança de seu contato e convívio para priorizar o seu futuro não me parece uma boa estratégia. Ouvi de uma adolescente: “Minha mãe é hoje sinônimo de dinheiro. Afinal, tenho mais lembranças da babá do que dela.” Passado e futuro do que foi um dia presente. 

Atente-se! Delegar o seu papel a terceiros é correr risco e contar com a sorte. Delega-se junto princípios, valores, o potencial e o desenvolvimento integral da criança. Arrisca-se seu presente, passado e futuro. Não se deixe ser substituído (a). Coloque-se em conflito e reveja suas prioridades.

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