Colunistas

Fim das fraldas e algumas reflexões

Deixar a criança participar ativamente de suas conquistas é o melhor modo de aprender e desenvolver

Estive na China para uma pesquisa educacional. O objetivo era conhecer de perto o que levou o país a alcançar em tão curto tempo o primeiro lugar no PISA, um respeitado teste internacional de qualidade educacional. Visitei diversas escolas, públicas e particulares, a Universidade de Beijing e participei de seminários com o ministério da educação e com a equipe pedagógica de cada escola visitada. Mas também fui em busca de compreender melhor a educação familiar. Afinal, inseridos em cultura tão diferente e estando distante da nossa, é mais fácil enxergar os nossos próprios condicionamentos culturais. Tive várias percepções, mas neste momento focarei nas fraldas, que me provocaram a reflexão de outras questões.

No Brasil, encontro vários pais que tem dificuldade para tirar a fralda dos filhos. E realmente não é um processo fácil. Requer dedicação, persistência, paciência, muitos lençóis e roupas molhadas. Mas na China observei algo bem diferente. As crianças de até dois anos tinham uma abertura no gancho das calças. Descobri então que elas não usavam fraldas e que a abertura servia para fazerem as necessidades, inclusive no inverno. Impregnada da minha cultura ocidental estranhei tal costume e o achei pouco higiênico. Mas logo pensei: seria a fralda higiênica? Além disso, fralda descartável em tamanha população seria um desastre. No mínimo, o planeta agradece.

Os chineses acreditam que sem a fralda as crianças aprendem a controlar o esfíncter de modo mais rápido. E não é que faz sentido?! A fralda acaba fazendo com que a criança se acomode. E de certo modo, é mais fácil também aos pais. Lembrei da chupeta e de várias “muletas” que vamos usando durante a vida que por um lado facilita, mas por outro nos acomoda, quando não nos aprisiona. Conheci uma adolescente que faz xixi na cama até hoje. A mãe levanta, troca a roupa de cama, reclama, mas o evento se repete. Talvez a menina sinta-se mais amada ao conseguir, neste momento, atrair a atenção da mãe só para ela. Mas ela paga um preço bem alto por isso. Mãe e filha precisam, com urgência, rever suas posturas.

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Volto as fraldas e ao processo de retirada delas com minhas duas filhas. A mais velha passou a primeira infância em São Paulo. Usou fralda por mais de dois anos. Na escola, pediam que eu levasse pilhas e pilhas delas. Já a mais nova passou este período em Fortaleza. Com um ano entrou na escola e no primeiro dia pediram-me que mandasse calcinhas ao invés de fraldas devido ao calor. Aproveitei e fiz o mesmo em casa. Quando fazia xixi, logo aprendeu que a lavávamos, trocávamos a calcinha e limpávamos o chão. Por conta própria passou a “assumir” este processo. E deixei, ainda que precisasse refazê-lo. Em pouco tempo ela começou a controlar o esfíncter. Provavelmente este ritual da limpeza a ajudou a tomar consciência de seu corpo, acelerando o processo de controle. E esta é uma grande dica: a aprendizagem gera desenvolvimentos. E deixar  a criança participar ativamente de suas construções e conquistas é o melhor modo de aprender e desenvolver. 

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