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O choro (não mais) solitário

Por que nos sentimos sozinhos quando os filhos nascem?!

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(Foto: Shutterstock)

Quando assisto a um filme ou uma série na qual se explora o nascimento de uma criança em décadas passadas, o que vejo é a família estendida toda reunida para receber o bebê. O casal não está só. Muita gente interferindo, é verdade. Mas o que são os familiares da gente sem um bom palpitezinho para dar?!

Uma série em especial me chama a atenção, Call The Midwife (Chamem a parteira). Londres, décadas de 50-60 e a crescente transformação social do cotidiano de uma comunidade na qual os bebês não param de nascer. Está tudo ali: a medicalização da gestação, a hospitalização do parto, a individualização do nascimento, a valorização da mulher e do homem em detrimento da família. É muito interessante ver como a Inglaterra foi de um extremo a outro. Hoje sei, por amigas que por lá vivem, que os partos ocorrem de forma mais equilibrada. Mas, e por aqui, em terras brasileiras? O que eu vivi, em duas ocasiões, foi um exílio que parecia não ter retorno…

Confesso, assim, que senti um certo calafrio com o convite para participar do “Seminário Internacional Mãe Também é Gente” promovido pela Revista Pais & Filhos agora em maio. Por que (re)pensar a maternidade?! Sim por que todo aquele abismo da solidão ainda permanece ao meu redor. Já não temo o parto nem os primeiros meses de vida. Meus dois filhos cresceram saudáveis. São inteligentes, divertidos. Mas agora tenho medo da vida adulta que se desponta para as minhas quase ex-crianças. Aos 17 anos, minha filha chora pelo namorado e se angustia quando tem que decidir qual carreira seguir. Vai para o quarto. Ouço o estalo da porta se fechando diante de mim… Por que ela também precisa se sentir sozinha?!

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Neste dia de maio, fui para o seminário da Pais & Filhos pensando nisso tudo e desejando estar em outros tempos, cercada por pessoas invadindo a minha privacidade. Pouco antes de sair, porém, a porta do quarto se abriu e minha menina veio até mim com a tela do celular nas mãos: “olha mãe, que legal, a fulana de tal conta tudo sobre o vestibular de psicologia que ela prestou ano passado, achei legal.”

Não sou da geração internet. Muito menos da geração “mães da internet”. Longe disso. Mas o sentimento de solidão, as redes sociais da filha e as quase 500 mulheres que encontraria no seminário se misturaram dentro de mim… O que tudo isso significa?! E juntei: informação + circulação + troca. Hummmm, aí tem coisa!

A comunidade a qual pertencemos pode não ser mais aquela da família estendida, mas existe esta outra que circula pelas redes sociais e que pode ser o grande ponto de apoio que precisamos.

Não vai ser a minha mãe nem a minha avó que me darão aquilo que necessito para me transformar em mãe, mas sim aquela outra ali (ou outro também), do blog X, que está me dizendo que “amamentar pode doer muito e tirar todo o prazer” ou como se sentiu durante a primeira noite om seu bebê em casa.

Livres e sem censuras, as pessoas compartilham suas experiências, se compartilham conosco. Confidências, opiniões, desejos, medos… Elas podem não estar na sala tomando um café e muito menos segurando o nosso bebê enquanto a gente toma um banho, mas estão ali de alguma forma.

E o interessante é que o contato entre nós, nesta grande comunidade que extrapola as paredes de casa, os limites da cidade e até do país, se dá pela escrita. Serei eu a secar as minhas lágrimas – assim como coube à minha filha recuperar a si mesma naquela tarde de maio – mas meu choro não é mais solitário. Não mesmo!

Há quem critique que tudo isso é muito virtual, nada real? Sim, muitos. Para esses eu aconselho ir ao próximo seminário da Pais & Filhos: a energia da mulherada (falo assim por que éramos muito mais mulheres do que homens) não surgiu do nada. Ela veio sendo forjada através das redes sociais. Já éramos íntimas antes de nos encontrarmos. No seminário, foi impressionante: todas nós emudecidas, ouvindo sedentas, identificando-se mutuamente. Algumas poucas se conheciam; muitas sabiam uma da outra; outras tantas nem tinham ouvido falar. Mas era uma grande comunidade de mães que desejam informação, querem transformar-se na e pela maternidade, ser mãe e, por que não, uma pessoa melhor…

P.S. Nesta coluna, falo sobre leitura e dou dicas de livros. Mas desta vez a dica foi um seriado da Netflix, Call The Midwife, produzido a partir das memórias da enfermeira Jennifer Worth. Um best-seller dos anos 2000 na Inglaterra. Uma trilogia que vendeu mais de um milhão de livros!!! Ainda sem tradução para o português, por isso indico o filme (ou os livros em inglês, que estão disponíveis na Amazon inclusive no formato e-book).

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