Bebês

Leite derramado

No mês da amamentação, reunimos as melhores matérias sobre o tema

Redação Pais&Filhos

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Por Deborah Trevizan, mãe de Isadora e de Pietro

Assim como ser mãe é algo que a gente precisa aprender, amamentar vai na mesma tocada. A gente não nasce sabendo, nem o bebê. Sim, somos mamíferos, mas de um tipo diferente. Mamíferos que raciocinam, o que por um lado ajuda, por outros atrapalha. E muito. Já viu uma gata preocupada se vai conseguir dar de mamar aos filhotes? Pois é. Os bichos seguem o instinto, mas a gente precisa de um tanto mais: calma, orientação médica correta, apoio familiar, troca de experiência com quem já teve dificuldade e conseguiu superar. E ter a tranquilidade de que, se não for mesmo possível, o filho vai ficar bem, que amamentar ou não não faz de ninguém mais ou menos mãe. Tudo muito óbvio, a princípio, mas, quando a dificuldade acontece com a gente, a coisa pega.

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A recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) é amamentar exclusivamente no peito até os seis meses de vida e continuar até os 2 anos ou mais, depois da introdução de outros alimentos. Aqui no Brasil, o tempo em que as crianças mamam apenas no seio vem aumentando, mas ainda é curto: em 1996, era de apenas 1 mês. Em 2006, chegava aos 2,2 meses. Isso apesar de 96,4% das mães terem amamentado ao menos uma vez. Ou seja: quase todo mundo tenta, mas a maioria fica pelo caminho: o bebê não pega o seio direito, o bico racha, a dor é insuportável. Ou, por estranho que pareça, o excesso de leite faz com que o seio fique tão cheio (leite também pode ser demais), que o bico se torna plano, e a criança não pode abocanhar…

Conversamos com várias mães que tiveram problemas, mas conseguiram superar. O segredo delas é algo em que a gente aqui acredita demais: troca de experiência com outras mães que viveram situações parecidas e apoio de profissionais preparados e interessados, mais do que na amamentação em si, na própria mãe, aquela pessoa que está ali, cheia de inseguranças, tentando fazer o melhor.

Experiência não é tudo

Muita gente que diz que amamentar é como andar de bicicleta: quem conseguiu uma vez, consegue sempre, não tem erro. Era o que Priscila Cavalcanti, mãe de Henrique e Fernando, também pensava. Ela teve uma primeira experiência de amamentação bem-sucedida e estava tranquila, acreditando que não haveria problema. Só que, quando o segundo filho nasceu, as coisas não foram tão fáceis, apesar dela se sentir a mãe mais experiente do mundo por já ter um filho de 2 anos. “Não podia estar mais enganada. O Nando berrava já na maternidade. Mamava muito e berrava mais ainda”, conta.

Em casa, os mamilos ficaram cheios de fissuras, e a dor era quase insuportável. Quem já passou por isso sabe que dói MUITO. Para piorar a situação, começaram os palpites. Família e conhecidos a aconselharam a desistir. “Pra quê sofrer tanto?”, diziam. Mas ela resolveu insistir. Caiu na Internet e buscou a ajuda dos universitários, ou seja, de outras mulheres mais experientes e de profissionais nas comunidades de mães e gestantes das quais já fazia parte.

Depois de navegar um tanto, descobriu, em São Paulo, o Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), que volta e meia a gente cita aqui. Trocando mensagens, percebeu que seu problema tinha a ver com a forma como o bebê estava mamando. Rapidamente, para seu alívio, tudo se resolveu.

“Na hora em que alguma coisa dá errado, é decisivo ter alguém que possa avaliar sua mamada, ouvir suas queixas e ajudar a descobrir como corrigir”, completa Priscila.

O episódio foi tão marcante que ela até acabou mudando de profissão. Abraçou a causa: deixou a advocacia, fez um curso de Capacitação para Atendimento em Aleitamento Materno e hoje é doula (profissional que acompanha o parto e o pós-parto, dando apoio à mãe) e consultora em amamentação. Como coordenadora do espaço Barriga Boa, em São Paulo, agora é ela que ajuda outras mães a superar obstáculos.

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Quando a cabeça atrapalha

Já para a especialista em música Isadora Canto, mãe de Theo e Lia, as dificuldades aconteceram tanto na primeira quanto na segunda amamentação. No caso do primeiro filho, ela atribui o problema à inexperiência. O pediatra sugeriu complementação com mamadeira, ela não questionou. "Quando vi que o Theo mamou toda a mamadeira e dormiu feliz, resolvi que aquele era o caminho. Amamentei-o dois meses e, depois, ele largou o peito.”

Já com a Lia, ela quis que as coisas fossem diferentes. Isadora optou por ter a filha em casa, em parto domiciliar. Dessa vez, a amamentação foi imediata e pareceu que seria sossegada. Que nada. Foram três meses e meio de muita dor. Recorreu a consultoras de amamentação e gastou dinheiro procurando resposta para a dor. Por conta de todo o estresse, Lia passou a não ganhar muito peso. A médica, a mesma do Theo, logo quis complementar. Inconformada, ela decidiu que faria diferente. Encontrou uma nova pediatra, que a via a cada dois dias. Mesmo assim, as dores continuavam. Chegou a complementar, mas sem deixar de amamentar sempre que o bebê queria. No meio de toda essa luta, a luz se fez durante uma consulta ao dermatologista.

O médico virou para ela e disse, simples assim: “Isadora, você não tem nada, seu seio está impecável, a pega dela é ótima, seu leite é forte. Volta para casa, relaxa e amamenta sua cria”. Foram palavras mágicas. A partir dali, ela não sentiu mais nada e conseguiu amamentar tranquilamente. “O problema, às vezes, está na nossa cabeça”, resume Isadora, que ainda amamenta Lia – hoje com mais de 1 ano. Depois de falar com especialistas, médicos, recorrer a listas de discussão na Internet, ela percebeu que a resposta estava dentro dela.

Impossível, mas nem tanto

Com orientação correta, é possível até vencer problemas de saúde que, em tese, inviabilizariam a amamentação. A psicóloga Pérola Boudakian, mãe de Felipe e Beatriz, tem um tumor benigno de hipófise, que é a glândula que secreta uma série de hormônios que dirigem funções vitais no organismo. Por isso, tem de tomar um remédio que inibe a produção de prolactina, um dos hormônios responsáveis pela produção do leite materno. Ela queria muito amamentar, mas sabia que talvez não desse mesmo. Tanto que, na primeira gravidez, perguntou para a médica se havia alguma chance de dar o peito. A resposta foi a esperada: não. Inconformada, Pérola foi atrás de uma segunda opinião e recebeu o “diagnóstico” de que poderia amamentar por seis meses.

Quando o filho nasceu, já tomou leite artificial na maternidade, sem que ninguém a consultasse. Isso sem contar a difícil recuperação da cesárea. Ironicamente, outro fator que dificultou o início da amamentação não foi falta de leite, mas excesso. “Ele tinha dificuldades para pegar o seio”, conta. Pérola reclama também das orientações contraditórias que recebeu na maternidade. “Cada enfermeira dizia uma coisa, e eu me sentia muito insegura”.

Mesmo sentindo dor, ela insistiu e amamentou exclusivamente até os 4 meses; depois, até os 7, após a introdução de outros alimentos. Nessa época, precisou voltar com a medicação. “A interrupção do aleitamento foi muito difícil para nós dois. Eu queria ter amamentado mais”.

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Diploma não é documento

Na segunda gestação, ela recorreu à Internet e contou com o apoio do pediatra que a acompanhou desde o nascimento de Beatriz. Quando a segunda filha completou 1 mês, Pérola fez uma série de exames, e a médica disse que ela só poderia amamentar até os 4 meses. A mãe não se satisfez com a resposta e estava decidida a amamentar até os 6 meses exclusivamente e seguir amamentando por quanto tempo ela e o bebê quisessem. “Encontrei tratamentos alternativos à alopatia, comunidades no orkut, amigas com o mesmo problema e fui escolhendo, tomando decisões”.

Quando o assunto é amamentação, vale a velha e boa máxima: na prática a teoria é diferente. Pode ser difícil mesmo para quem, em tese, sabe tudo sobre o tema. A ginecologista e obstetra Ana Luísa Torres, mãe de Pedro, é prova disso. Ela sentia os mamilos muito sensíveis e doloridos. Com o estresse, a produção de leite diminuiu e, com isso, o bebê não conseguia retirar a quantidade de leite suficiente pra ganhar peso. O pediatra então indicou a introdução do leite artificial como complemento. Para evitar que Pedro largasse o peito, ela oferecia o leite artificial através de uma sonda acoplada ao mamilo, em um sistema que se chama translactação, em que o bebê recebe a quantidade de leite que precisa e, ao mesmo tempo, estimula a mãe a produzir mais leite, já que suga, ao mesmo tempo, o seio e a sonda. E foi o que aconteceu. Depois de dois meses e meio, a produção de leite voltou. O encorajamento para persistir veio das amigas do grupo de apoio à amamentação Matrice, de São Paulo. “Ouvindo histórias muito parecidas com a minha, descobri, primeiro, que não estava sozinha e, depois, que era possível e viável voltar a amamentar exclusivamente no peito, vendo o exemplo de outras mães que já tinham conseguido.”
 
Quando o leite é demais

Com Gisela Ruffo, mãe da Stela, o problema não foi a falta, mas o excesso de leite. Já na maternidade, ela sentiu que os seios estavam muito duros e chamou a enfermeira de plantão, que disse que era normal, já que o leite estava descendo. No dia seguinte, ela acordou espantada, pois os seios estavam enormes. Só então as enfermeiras apareceram para fazer uma compressa fria. Mas era tarde demais. Até a aréola estava endurecida, e Stela não conseguia pegar o peito. Para reverter a situação, ela precisava seguir um complicado ritual: ir ao berçário

ordenhar, fazer massagem para que a bebê conseguisse mamar… Como às vezes demorava demais, as enfermeiras tinham de dar complemento. E cada enfermeira que passava pelo quarto dava uma orientação. Ao chegar em casa, a dor continuava. Stela não conseguia sugar. O leite era tanto que um médico chegou a receitar um remédio para diminuir a produção. Foi então que indicaram para ela a consultora de amamentação Márcia Koiffman. As primeiras orientações vieram por telefone, depois em casa. “Ela ficou cinco horas comigo, me ensinou como eu teria de fazer para esvaziar as mamas e, depois de ela fazer uma massagem, senti que o meu peito já tinha voltado ao normal, o que até então parecia impossível de acontecer tão rápido”. Nunca é demais lembrar que amamentar é importante, mas, quando não dá mesmo, não precisa enlouquecer. Repetindo: você não deixará de ser mãe se não conseguir.

Assim como ser mãe é algo que a gente precisa aprender, amamentar vai na mesma tocada. A gente não nasce sabendo, nem o bebê. Sim, somos mamíferos, mas de um tipo diferente. Mamíferos que raciocinam, o que por um lado ajuda, por outros atrapalha. E muito. Já viu uma gata preocupada se vai conseguir dar de mamar aos filhotes? Pois é. Os bichos seguem o instinto, mas a gente precisa de um tanto mais: calma, orientação médica correta, apoio familiar, troca de experiência com quem já teve dificuldade e conseguiu superar. E ter a tranquilidade de que, se não for mesmo possível, o filho vai ficar bem, que amamentar ou não não faz de ninguém mais ou menos mãe. Tudo muito óbvio, a princípio, mas, quando a dificuldade acontece com a gente, a coisa pega.

A recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) é amamentar exclusivamente no peito até os seis meses de vida e continuar até os 2 anos ou mais, depois da introdução de outros alimentos. Aqui no Brasil, o tempo em que as crianças mamam apenas no seio vem aumentando, mas ainda é curto: em 1996, era de apenas 1 mês. Em 2006, chegava aos 2,2 meses. Isso apesar de 96,4% das mães terem amamentado ao menos uma vez. Ou seja: quase todo mundo tenta, mas a maioria fica pelo caminho: o bebê não pega o seio direito, o bico racha, a dor é insuportável. Ou, por estranho que pareça, o excesso de leite faz com que o seio fique tão cheio (leite também pode ser demais), que o bico se torna plano, e a criança não pode abocanhar…
 

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