Família

A ciência de ser bom pai

Adultos que se lembram da infância com coerência são melhores pais, diz pesquisa

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Você já parou para pensar em como pessoas com pais ruins tendem a ser bons pais? Onde e como aprendem a ser amáveis, responsáveis, a rir, a lutar ou dar conforto depois de seus filhos ralarem o joelho se seus pais nunca o fizeram?

Por décadas, psicólogos estudam como o estilo de ser pai é transmitido entre gerações. Como imaginávamos, eles descobriram que não existe fórmula. Fatores como os genes e o temperamento, modelos comportamentais e experiência de vida desempenham um papel na educação dos filhos. Porém, uma pesquisa da Universidade Estadual de São Francisco mostra como isso funciona. A análise trabalha com um conjunto de 20 perguntas feitas ao adulto que prevê com 80% de precisão o tipo de relacionamento que ele terá com seu filho. A grande sacada é (apesar de as questões serem sobre histórico familiar) que os resultados não estão preocupados com o que realmente aconteceu com você quando criança. Em vez disso, a entrevista foca em como você conta a história de como as coisas aconteceram. Esta seria a melhor forma de predizer como você será como pai ou mãe.

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Voltando ao assunto, a gente se torna mãe e pai quando nos tornamos um. Nós absorvemos os padrões básicos e o “tom emocional” no primeiro ano de nossa vida. Psicólogos chamam isso de nosso “modelo de trabalho interno” – uma representação mental, em grande parte inconsciente, do mundo social codificado profundamente em nossos cérebros. Nós captamos isso enquanto somos bem pequenos, e isso é uma operação sistemática que usamos nas relações, inclusive com nossos filhos.

Isso é revelado na pesquisa também. Crianças de famílias que passaram por muitos conflitos tendem a ser pais conflituosos. Pesquisadores viram como o nível de incerteza e caos ou carinho e calor na família de origem de uma pessoa se refletem nas relações com seus filhos mais tarde. Em um estudo anterior, mães foram entrevistadas para descobrir como aceitavam ou rejeitavam seus sentimentos por seus próprios pais, e esses fatores equivaliam a quanto seguras ou ansiosas elas eram com seus filhos.

Experiências semelhantes, pais diferentes

Mas nós sabemos que a história toda não se resume a isso, já que as pessoas com experiências semelhantes podem ser pais muito diferentes. De uma maneira geral, esse questionário explica como isso acontece. O entrevistado e o entrevistador são adultos e sua conversa é gravada, cuidadosamente transcrita e codificada. O objetivo da pesquisa é ver em qual das categorias o pai se encaixa (independente, preocupado, perdido ou mal resolvido) e o quanto ele acha que se sentirá seguro na relação com o filho em cada fase (bebê, criança, adolescente ou jovem).

As questões incluem:

-A que tipo de pai você se sente mais próximo, e por quê?

-Quando você se chateava quando era criança, o que você fazia?

-Em geral, como você pensa que suas experiências de vida com seus pais têm afetado sua personalidade (já adulto)?

-Por que você acha que seus pais se comportavam da maneira com que se comportavam durante sua infância?

-Se você pudesse fazer três desejos para seu filho para se realizar daqui 20 anos, o que seriam?

Enquanto a pessoa responde, pesquisadores não só anotam os vários detalhes de sua infância, mas como a pessoa se liga a esses detalhes enquanto está reconstruindo sua memória.

A chave é a coerência: adultos que se dispõem a falar sobre sua infância (positiva ou negativamente) de uma forma coerente são classificados como “autônomos”. Pessoas com narrativas coerentes contam sua história de infância de uma forma clara, com pensamentos que fluem logicamente.

Ser coerente: um bom sinal para a ciência de ser bom pai

Alan Sroufe, um dos principais pesquisadores do desenvolvimento infantil que vem trabalhando com esse teste por muitos anos, explica que uma narrativa coerente é um sinal de que a pessoa vê e entende seu passado (não que ela tenha tido uma boa infância necessariamente).

Pessoas com narrativas incoerentes, por outro lado, tentem a afastar-se da questão ou se perdem em um detalhado relato de deficiências dos pais – eles são incapazes de organizar uma história. Fugindo, saindo do contexto, não ter muitas lembranças, não estar disposto a compartilhar, ou ainda estar com raiva são todos sinais de incoerência.

“Ninguém tem pais perfeitos”, diz Scroufe. Quando pessoas descrevem seus pais em termos totalmente positivos, isso sempre significa que eles estão bloqueando um lado da história ou não viram essas “sombras”. Ele explica que a contradição, em reclamações amplas, muitas vezes não traz lembranças coerentes.

Por que a coerência é necessária para bons pais?

Os pesquisadores abriram “as mentes” dos entrevistados e analisaram se suas experiências de vida, memórias, pensamentos e sentimentos estavam organizados de forma coerentes e organizada. Aqueles que conseguiram ser coerentes em seus relatos e respostas, tendem a ser mais responsáveis e disponíveis em relação aos próprios filhos, além de ter mais  facilidade em interpretar as necessidades dos pequenos.

Incoerência pode ser sinal de que o pai possui questões não resolvidas em seu passado que afetam a maneira que veem ou tratam suas crianças. Sroufe dá um exemplo: um pai desatento interpreta como fome quando, na verdade, a criança procura por contato físico. Detalhe: em um estudo, quando mães assistem a um vídeo de seu filho em uma situação perigosa ou desconfortável, aquelas classificadas como ‘desatentas’ eram mais propensas a interpretar o comportamento do seu bebê como negativo ou mimado.

Pais preocupados, que ainda se sentem magoados com seus pais, se sentem marginalizados e oprimidos pelas perguntas, sentindo dificuldades em ver seu papel e participação nas coisas.

Como lidar com os “traumas da infância”

Pais “mal resolvidos” – muitos desses que experimentaram trauma – tornam-se desorientados ou mergulhados em emoções e memórias durante a entrevista. Como pais, eles são mais vulneráveis a se desconectar ou assustar seus próprios filhos.

É claro que nada disso é uma verdade absoluta, e nem significa que, necessariamente, a infância de alguém vai dizer como esta pessoa será como pai ou mãe. É bom lembrar que pais independentes não tiveram uma infância necessariamente linda com piqueniques e viagens ao campo, mas eles conseguiram, de alguma maneira, entender suas vidas e ver a educação de seus pais de forma clara. Adultos independentes que pensaram sobre sua infância têm consciência sobre seu passado e tocaram suas vidas em frente. Sroufe diz que pessoas que tiveram nos pais modelos de maturidade conseguem com bastante frequência dar o suporte e a segurança para seus companheiros e se tornam pessoas mais independentes ao longo da vida. As pesquisas indicam três coisas que podem ajudar a acabar com esses “traumas” ou dificuldades na infância: pelo menos 6 meses de terapia nessa fase da vida, um outro adulto presente, que seja referência, e um parceiro na idade adulta. A dica é “relações de carinho transformam histórias negativas”.

Ninguém se torna bom pai se sua vida for uma página em branco. Nem queremos, já que nossas experiências pessoais, peculiaridades, e falhas fazem quem somos. Conhecer nossas vulnerabilidades parece ser a parte mais importante. Admitir seus defeitos e tudo aquilo que você “puxou” de seus pais é, provavelmente, um bom começo. Na verdade, se você estiver lendo este artigo com qualquer quantidade de curiosidade sobre si mesmo como um pai, eu diria que é um bom sinal de que você já está fazendo o melhor por seus pequenos.