Criança

Eu quero agora!

As crianças estão mais mal-educadas do que nunca, e a culpa é nossa. E o problema disso é o adulto frustrado que está criando

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

”Pai, eu quero esses gansos!”, diz Veruca Salt no filme A Fantástica Fábrica de Chocolate. O pai saca a carteira do bolso e oferece para Willy Wonka qualquer preço pelos gansos, mas o animal não está à venda e o dono da fábrica logo diz  que ela não pode ter um valor. “Eu não me importo, quero agora, me dê agora!”, grita a menina com seu pai. Quem assistiu ao filme ou leu o livro de Roald Dahl deve se lembrar da personagem que conseguia tudo o que queria fazendo birra e gritando com o pai, e você, provavelmente, se irritou com a atitude da menina e a julgou mal-educada e mimada. Aos olhos do pai, Veruca Salt era doce e ingênua e fazia apenas alguns pedidos… Criança é assim mesmo, certo? Não. Falta de educação não é normal.

Alguns pais preferem não ver que estão mimando seus filhos. Mas, sim, a culpa é nossa mesmo. A criança naturalmente busca ser o centro das atenções, ela ainda não tem noção de causa e consequência e, por isso, vai querer sair pela rua correndo, pedir tudo o que chamar sua atenção ou trocar o canal da TV sem a sua autorização. A nossa função é fazer com que o filho encontre o limite por si só. Se ele sair correndo para atravessar a rua, você deve explicar que existe uma convenção que deve ser seguida, como olhar para os dois lados, esperar os carros pararem, em vez de simplesmente dizer “não atravesse”. A criança tem de ter consciência de que, se fizer aquilo, vai prejudicar a si própria.

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A auxiliar administrativa Marina Charavara Rodrigues, mãe de Julia, de 7 anos, conta que a filha usa o poder de persuasão para conseguir o que quer e acaba vencendo pelo cansaço. “Lá em casa a prioridade é sempre ela, filha única e o centro das atenções. Acabo abrindo mão de muita coisa. Às vezes vou fazer o jantar e já penso no que ela prefere, para não ter problema mais tarde”.

Miniadultos

Com um bom desempenho na escola e facilidade em fazer amizades, a menina pouco se parece com o típico modelo de uma criança mimada. Isso porque a Julia consegue ouvir um “não”, mas nem sempre ouve. Apesar de saber que essa tática de aceitar as vontades da filha na maioria das vezes não é o melhor dos mundos, a explicação da mãe é que não quer ser como seus pais foram – ela se lembra dos tantos ‘nãos’ que ouviu na infância e evita seguir o mesmo modelo. E isso não é exclusividade da sua família. A partir do século 18, a relação dos adultos com as crianças sofreu uma mudança tão grande que mostra seus efeitos ainda hoje.

O livro História Social da Criança e da Família, do autor francês Philippe Ariès, mostra que, na Idade Média, a criança era vista como um filhote, em seus primeiros anos de vida, e, depois, como um adulto. “A duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, enquanto o filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança, então, mal adquiria algum desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus trabalhos e jogos”.

Depois da Revolução Industrial as coisas começaram a mudar. Os pais passaram a colocar seus filhos na escola e, pela primeira vez, as crianças pertenciam a um grupo separado dos adultos. Isso gerou uma afeição dos pais com seus filhos. A criança perdeu seu anonimato e a família passou a se organizar em função dela.

Mundo ‘criançocêntrico’

O pai, antes o centro da família, cedeu seu lugar aos filhos. Com as mães, a mudança foi ainda maior, já que antes quem amamentava os bebês, nas classes sociais mais altas, eram as amas de leite. Com essas mudanças, as mulheres passaram a cumprir um papel cheio de funções e tarefas. Para Marcia Neder, mãe de Julia e Adriano, psicanalista e autora do livro Déspotas Mirins – O Poder nas Novas Famílias, esses fatores foram fundamentais para criar-se a raiz do despotismo infantil, já que o universo da família ficou essencialmente em volta dos filhos. “Você colocou um adulto inteiramente disponível a uma criança, cujos desejos e necessidades estão só para os filhos”.

O amor pela criança passou a ser o centro e, se há 20 anos esse amor poderia ser diluído entre tantos filhos, hoje as famílias mais enxutas focam suas atenções em uma ou duas crianças (a média brasileira é de 1,9 filho por casal).

“Eu chamaria o século 20 de ‘Era da criança’. E isso aumenta no século 21, em que você tem tudo desenvolvido para o universo infantil. A criança adquire uma importância na sociedade que nunca teve e, junto com isso, vem a valorização do sentimento do amor pela criança”, explica Marcia.

Mal de amor

Não é que os pais não devam amar os filhos, muito pelo contrário. A psicóloga explica que o problema é que, por medo de que as crianças não gostem mais dos pais, estes passam a atender todas as necessidades e vontades dos filhos. Afinal, ninguém quer ser a mãe chata ou o pai careta. As crianças usam figuras de seu imaginário e dividem o bom do mau, como se a mãe que diz ‘não’ fosse a bruxa, e a fada seja aquela mãe que é adepta do tudo pode. O que esses pais não sabem é que, ao serem permissivos demais, estão criando, na verdade, uma situação contrária, gerando adolescentes e adultos frustrados.

A psicóloga Elizabeth Monteiro, mãe de Gabriela, Samuel, Tarsila e Francisco, autora do livro A Culpa É da Mãe e colunista da Pais & Filhos, explica que o ‘não’ é o primeiro organizador psíquico. A criança precisa passar pelas dores do crescimento, e impedir que ela sofra é o maior mal que os pais podem fazer aos filhos. Por exemplo, se ela não fez a lição de casa, vai ter que encarar a professora. Ela precisa saber lidar sozinha com isso, os pais não podem fazer a lição pelos filhos. Claro que muitas vezes dá vontade de arrancar as dores e angústias deles com a própria mão, mas, mesmo se pudéssemos, não seria justo, estaríamos tirando o aprendizado, impedindo que eles saibam o que podem ou não fazer, como irão ou não agir daqui pra frente.

As crianças esperneiam mesmo. Usam todo o corpo para mostrar o que querem. Mas cabe aos pais mostrar se elas podem mesmo ter aquilo que desejam. É preciso criatividade para mudar o foco da criança. “Também não dá para os pais ficarem batendo de frente com uma criança, como quem mede quem manda mais, isso gera um vício no relacionamento de pai e filho, a criança vai teimar para tudo o tempo todo, como se fosse um jogo”, diz Elizabeth.

Se você mudar o foco, não der certo e logo a criança partir para o choro, deixe que chore. Como diz o ditado popular, o choro lava a alma. “É muito mais confortável você concordar com ela assim que começar a chorar. E muitos pais fazem o que é mais fácil porque hoje em dias as pessoas estão cansadas e irritadas, o choro logo incomoda e a criança aprende a condicionar o choro com teimosia porque os pais não conseguem manter o não”, completa.

Um doce de criança

A coordenadora pedagógica do ensino infantil e fundamental I do Colégio Harmonia, Marina Sólia Faro, mãe de Adriana, Renata e Marcelo, conta que desde o começo de sua carreira, há 50 anos, muita coisa mudou. As crianças têm outro perfil, são mais ágeis, não aceitam a chamada decoreba de colégio, por exemplo, querem explicações. Claro que isso é bom. Em contrapartida, algumas noções se perderam, como a de hierarquia. “Quando falamos em hierarquia, nem tem nada a ver com alguém inatingível que fica acima de todos, mas sim entender como funciona uma organização. É importante que cada um exerça sua função dentro de uma organização e que saiba respeitar quem está acima”, diz.

Criança precisa respeitar os mais velhos. Precisa, sim, dizer “por favor” e “obrigada”. Precisa ter paciência para conseguir as coisas. E precisa de autoridade. As chamadas palavras-mágicas ainda valem, aliás, são obrigatórias.

Se ela disser que você é chato, que não gosta mais de você e que é o pior pai ou mãe do mundo, espere. A bruxa má logo vira a fada e vice-versa. “Seu filho pode sapatear por quatro dias, argumentar, chorar, depois de um tempo vai saber que perdeu a briga. E tem que saber perder. É o adulto que oferece para a criança o caminho que ela vai traçar. Estamos oferecendo caminhos muito fáceis e isso pode ter uma repercussão a longo prazo”, explica a psicóloga Marcia Neder.

Apesar do mau comportamento já ser antigo conhecido, nos últimos anos isso tem aumentado. E os efeitos serão sentidos mais pra frente, quando as crianças da geração do sim crescerem.

A psicóloga Marcia Neder afirma que hoje já vê adultos absolutamente frustrados, com um sentimento de incapacidade, pois quando olham pra trás não conseguem ver o que fizeram.

As queixas mais comuns de jovens que foram mimados na infância são do sentimento de derrota por saberem que escolheram os caminhos mais fáceis ao longo da vida.

E se hoje os pais se submetem a esse fenômeno que Marcia chama de pedocracia (poder das crianças) eles estão, na realidade, tirando dos filhos o aprendizado de que eles vão conseguir na vida o que conquistarem e que, se não conseguirem, que terão de lidar com um fracasso. Faz parte.

Aquela história que muitos de nós ouvimos durante a infância “criança não tem gosto nem paladar”, não é verdade, criança tem gosto, paladar, anseios e direitos, sim. Mas nada disso significa que as vontades de seu filho devam ser sempre realizadas e nem que ele só terá portas abertas. Sem choro nem crise, criança merece ser tratada como criança e não como o rei ou rainha da casa.

Pratique sempre boas maneiras

  • Inclua outras pessoas nessa: Seu filho pode procurar a opinião de parentes, professores ou amigos da família. Por isso, reforce suas regras com eles. Se souberem como a banda toca na sua casa, vai ser mais fácil.
  • Faça um teatro: Prepare seu filho para diversas situações em que ele precisará mostrar boas maneiras. Estimule o aperto de mãos, o contato visual e saudações como “bom dia”, “obrigada”. Faça disso uma brincadeira.
  • Faça tudo de novo: Vale repetir as regras, mostrar o que pode e o que não pode. Se o limite são duas horas por dia no computador, ele vai respeitar e, se não respeitar, cabe a você explicar mais uma vez, e outra, e outra…
  • Jantar em família: Além de ser uma delícia jantar em família, com todos juntos, contando suas experiências, o jantar é uma excelente experiência para praticar regrinhas básicas de etiqueta, como segurar os talheres ou como sentar-se à mesa.