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Deixe seu filho crescer

Querer o filho dependente é uma forma de tentar segurar o tempo para quem sabe dar aquilo que sabemos estar devendo

criançalivre

(Foto: Shutterstock)

Que mãe não sente saudade de alguma fase da infância de seus filhos? Todas nós sentimos! Há, contudo, um fenômeno que observo há algum tempo e que vem me incomodando bastante, já que passo a maior parte dos meus dias, se não meu tempo todo, tentando ajudar famílias a criar filhos mais responsáveis.

As mães cada vez mais lamentam o fato de seus filhos estarem crescendo. E nesse caso são só as mães mesmo: procurei e não encontrei um só pai que tenha esse saudosismo antecipado com tanta intensidade.

Sem dúvida, a possibilidade de expor os sentimentos nas redes sociais pode ter trazido à tona algo que já fosse comum no passado. Mas não é só o fato de podermos enxergar o desabafo de tantas mães simultaneamente. Realmente as mães, no passado, não lamentavam tanto o crescimento dos filhos como fazem hoje.

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Eis que, depois de meses remoendo esse assunto, recebo de uma amiga querida o link para uma matéria interessante demais! A matéria relata que faculdades passaram a colocar reunião de pais como parte do calendário. O motivo: os alunos têm se mostrado imaturos para cuidar de questões como pagamento, faltas e calendário de provas. Quase caí da cadeira ao ler!

Toda minha preocupação com o sofrimento das mães ao ver que os filhos estão crescendo se baseava nas consequências que tal atitude trará na escola, no envolvimento com os estudos, com a recusa por assumir responsabilidades como aluno no ensino regular. Até então, eu estava pensando somente na área em que mais atuo no momento: a educação infantil, o ensino fundamental e médio.

Confesso que não tinha parado para pensar que toda a vida acadêmica está em risco. E, obviamente, a vida pessoal de um adulto em idade cronológica, porém, criança na idade emocional, não será nada fácil.

Foi aí que resolvi voltar a este texto que estava iniciado há mais de seis meses e finalmente suplicar a essas mães tão carentes de seus bebês: deixem que seus filhos cresçam! Mais que isso: ajudem seus filhos a crescer!

As consequências por querer manter seu filho ali, pertinho e dependente, estão bem delineadas no artigo publicado pelo Uol. Penso que vale a pena, então, explorar um pouquinho as causas desse sofrimento todo em relação a algo que deveria ser maravilhoso: ter o privilégio de ver os filhos crescendo, ali, debaixo de seus olhos.

Como tenho conversado muito com mães dos mais variados lugares e culturas, percebo um ponto em comum: a sensação de que falta tempo para curtir aquele bebê. O desejo imenso de fazer tudo para dar conforto, gerando mais e mais dedicação ao trabalho, enquanto o filho cresce. A culpa pelo dia em que o filho teve febre e a mãe não pode ficar com ele. O remorso pela falta de paciência naquela noite em que o cansaço falou mais alto.

O grande paradoxo é não querer que essa criança cresça! Sabendo que, ao se tornarem cada vez mais independentes, nossos filhos nos permitem retomar as noites de sono, os momentos de cuidado para nós mesmas, por que sofrer? Vejo aí uma pitada de egoísmo. Querer o filho dependente é uma forma de tentar segurar o tempo para quem sabe dar aquilo que sabemos estar devendo: tempo de qualidade com eles.

Decepcionada? Acha que não é esse seu caso? Que não tem como deixar tudo o que faz para ficar com ele o tempo que gostaria? Pode parar de sofrer então e assumir que de fato o que seu filho precisa você tem sim como dar. E não precisa deixar de lado sua carreira, vida pessoal, cuidados com você mesma. O que de fato conta é o tempo que você passa com ele. Foco neste período! Aquelas longas horas fora de casa não prejudicam. Mas cada minuto ao lado dele, quando aproveitado com qualidade, esse sim, marca e muda para sempre a vida de seu filho!

Se você é uma daquelas que já me disseram: “não é isso, é que gosto tanto de bebê e ele cresceu tão rápido…” a resposta é mais simples ainda: tenha outro filho. Pronto! Deixe que seu filho cresça feliz e seguro – por ele! Se isso incomoda porque você ama ter um bebê em casa, basta ter outro: adotado, engravidado – da maneira que você puder!

E um alerta: será que você não está sofrendo tanto por antecedência e perdendo a oportunidade de curtir seu bebê? Tenho aqui comigo, porque fui salvando os posts que encontrei nos últimos meses, a foto que mães postaram de seus filhos, lamentando: “meu bebê se foi”; “kd o bebê que estava aqui?”, “pq eles crescem tão rápido?”… e em todos os casos ali ainda havia um bebê!

Olhe para seu filho. Se ele ainda usa fralda, chupeta, mamadeira, não fala ou está começando a balbuciar algumas palavras, tenho uma notícia: enquanto você lamenta, seu bebê está bem aí, debaixo dos seus olhos!

Que tal trocar a culpa e lamentações por atitudes que ajudem seu filho a sentir que faz você feliz ao se tornar mais independente e responsável e assim criar um adulto feliz e bem resolvido?

 

*Por Roberta Bento