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Da bobagem do “a” e do “o”

De onde vem essa separação dos "mano" e das "mina"?

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(Foto: Shutterstock)

“Mãe, você quer esse ou esse?” Joaquim me oferece a escolha diante de dois carrinhos. Eu escolho o verde. Tão logo ele me truca com a seguinte cartada: “mas mãe,  esse é do menino, mãe.”. Ao que eu respondo: uė por que? “Porque ele é verde e esse é rosa”. Eu: e daí? “Você tem que escolher o rosa. O rosa é  da menina e o verde do menino”. Mas e se eu quiser o verde e você quiser o rosa?

Passamos um tempo no silêncio enquanto ele se mexe em corpo, faz um tipo espiral do pensamento na cintura, troca um pé de lugar com o outro, deixa a cabeça pendurar o peso em algum travesseiro imaginável (isso somente acontece nas musculaturas das crianças que ainda pensam com o corpo)…

Eu espero todo esse tempo-gesto acontecer e quase consigo ver palavras que contam um percurso desse pensar. Mas ali, naquele corpo de criança,  com gesto de busca pela resposta, vi meu filho nem “a” nem “o”. O vi com traços de moleque enquanto uma doçura o invadia.  Não era menino nem menina. Não fazia parte do corpo dele essa decisão tão rígida que ele trazia. Pensei, de onde vem essa separação dos mano e das mina? Onde isso começou com Joaquim?

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Claro que a saúde do estar junto entre corpos de meninos e de meninas deve ter mostrado a ele que algumas coisas são diferentes. Quando ele e ela, a amiga, fazem xixi na escola lado a lado, no mesmo banheiro, no mesmo tempo, sei que se diferenciam.  Diferença saudável,  bem-vinda.

“Tá bom mãe.  Você brinca com o verde e eu com o rosa. Tudo bem”. Começamos a correr com os carrinhos. Lado a lado. Eu ele, ele eu.

Na manhã seguinte,  ele se aproxima trazendo os dois carrinhos. “Mãe, qual você quer? O rosa. “Ah, legal mãe. Mas pode ser o verde”. Eu vejo nos olhos dele o esforço em fazer essa proposta e sua variação. Ficou bem feliz que eu escolhi o rosa, parece. Seguimos.

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