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Escola ou Família: quem escolhe quem?

Em seu texto, Marcelo Cunha Bueno explica que no momento de decidir os rumos da educação do filhos, os pais devem considerar a proposta da instituição

Estaciona o carro, pega o carrinho. Passeia pelos corredores. Confunde-se com tantas e tantas marcas expostas na gôndola. Pensa: essa marca é boa! É a líder no mercado! Não, espera. Tem aquela que é mais barata e tem alguns gramas a mais. Crise: vale mais pagar mais por menos ou menos por mais? Segue a peregrinação. Mais produtos, mais marcas, mais promessas. Aditivos, atividades extra-curriculares. Conservantes, apostilados. Corantes, suas areias coloridas. Rankings de aprovação. Calorias, gorduras discursivas. Supermercado, escola.

Temos dois problemas com essa imagem, com essa história: das pessoas que escolhem escolas por sua marca, tradição e pela quantidade de produtos agregados, e as escolas que aceitam estar expostas à superficialidade dos discursos das gôndolas da educação.

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Dois problemas que refletem muitos fatos. Sociais, culturais, educacionais… de uma sociedade que se organizou mais no ter do que no ser e no estar. Não se escolhe mais uma escola porque é a melhor escola para você naquele exato momento de sua vida, da vida de sua criança, mas se escolhe escola porque ela escolhe aqueles que a escolherão. É um processo excludente, que pressupõe um tipo de família, um tipo de criança, um tipo de estudante antes mesmo dele existir. As escolas se enchem de produtos, de discursos genéricos, pois vendem mais fácil, não é preciso pensar muito para tê-los em seu portifólio.

As famílias perderam o direito de escolher as escolas de seus filhos e filhas. Perderam esse direito autoral na medida em que cederam aos discursos totalizantes predominantes numa sociedade, que não tem mais tempo para olhar para a educação como se deve. Perderam a chance de escolher a escola com seu devido tempo, pois “não há mais vagas”, “não haverá mais vagas depois”. Sim, pode não haver mais vagas, agora ou depois, mas isso não lhe dá o direito de tirar o tempo e o espaço que um pai e uma mãe precisam para escolherem a escolas que seus filhos e filhas passarão grande parte da sua, ainda, curta vida!

E as famílias não conseguem ter acesso à proposta da escola, ao que a escola pensa e faz com e pelo mundo, pois a quantidade de produtos que se vende junto com a marca é impressionante! É ballet, robótica, segundas e terceiras línguas, tecnologias, artesanato, esportes, natação… sem contar com “banho tomado”, com “jantar dado”. Pensa-se em tudo, menos na proposta. Nada se sabe da proposta, pois ninguém fala, conversa, reúne-se. Professor se cala na sala, pois é um outro sempre que fala. Alguém que fala o discurso da educação como ciência exata.

E como ficam os professores nessa história? Como se sentem as figuras mais importantes desse processo? Tudo vale mais do que nós, educadores. Os produtos, as marcas, as gôndolas, os apostilados, as metodologias, as atividades extra. Desvalorizados e esvaziados em sua essência. Despotencializados da autoria de seu trabalho. Desautorizados de serem os sujeitos da ação educativa. Isso está errado. Somos nós, os educadores, que fazemos a escola funcionar. Somos nós os que colocam em prática os currículos das escolas. Somos nós que deveríamos ser os autores das boas escolas. Não é?

Mesmo assim, conseguimos reconhecer quando um trabalho é bem feito. Encantamo-nos com o simples. Com pequenos e grandiosos projetos de educação quando aparecem na nossa frente. E há muita gente fazendo coisas muito boas. Muitas escolas com seus educadores fazendo educação para valer. Dando a cara para bater na hora de sustentar uma decisão, um argumento, uma posição. Mesmo que isso custe estudantes, famílias, mensalidades a menos. Fincar o pé significa fazer a diferença. Criar identidade conceitual, autoral. Significa não ceder aos modismos. Significa resistir e não se entregar ao fácil, genérico. Aos apostilados, mastigados, digeridos sem sabor, sem o prazer da construção coletiva, sem a sensação de crescimento intelectual da criação conceitual.

Então, é preciso engrossar o coro. O simples é o que há de mais complexo na educação. O simples é o que mistura profundidade conceitual com relação. É preciso não aceitar mais as superficialidades vindas e ouvidas nos corredores dos supermercados educativos e dar um basta nisso tudo. É preciso devolver às famílias o direito de terem tempo para escolher as escolas de seus filhos e filhas. É preciso entregar a educação nas mãos dos educadores, que estão na linha de frente de qualquer escola. É preciso! É preciso não ter mais receio de fazer uma boa educação. Mesmo que custe caro. É preciso ter coragem de encarar, nos discursos mais genéricos, a função que nos foi dada de formar, educar, ensinar.

A escolha por uma escola tem de ser de responsabilidade dos senhores pais, e das senhoras mães ou dos responsáveis pela criança. A escola tem de se abrir para a multiplicidade democrática, e não encarar crianças e famílias como consumidores de seus produtos engrossados com caldo artificial. A função da escola é a de ajudar a escolher. Se livrar do discurso fácil, sem cair, claro, no chato pedagogês. Não é isso a que me refiro. Falo do improvável, do incerto, do intocável, do íntimo, da construção que pressupõe tempo e de tudo mais que não pode ser capturado pelas narrativas genéricas da escola que expõe em suas gôndolas os produtos cheios de açúcar, gordura e corantes!