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“O que faria se soubesse?”

As crianças com deficiência estão aí e precisam estar nas escolas

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Recentemente circulou na internet o texto “O que faria se soubesse?” de autoria da jornalista Fabiana Ribeiro, no site Para Todos. Me chamou muito atenção. Falava o seguinte:

“Sua escola nega matrícula para crianças com deficiência? Sua escola cobra taxa extra de alunos de inclusão? Sua escola cobra uma mensalidade a mais do aluno com necessidades específicas na aprendizagem? Ah, você não sabe… E se souber, o que vai fazer? Vai fingir que não viu que a escola, escolhida para colocar seu filho no topo dos topos, burla descaradamente a lei? Ou vai se levantar contra essa ilegalidade, questionando a sua escola que empurra crianças e mais crianças para apenas alguns colégios? Ou, ao contrário, vai apoiar a ilegalidade, afinal, os fins justificam os meios, você não tem nada a ver com isso, e o que todo pai quer é ver o filho bem sucedido e, claro, feliz.

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E, se eu te disser que a sua escola cheia de projetos sociais, dando agasalho na favela, disputando campeonatos, preparando seu filho para a Primeira Comunhão, levando seu filho pra fazer medicina no Fundão ou Engenharia no ITA, não quer saber de inclusão da porta pra dentro? Aí, você vai até dizer que eu estou generalizando, e eu te respondo que ‘no Rio, só uma dezena das grandes escolas está se empenhando de verdade para assumir esse desafio… e ainda, assim, boa parte dessas dez ainda esperava a nova lei cair…’ Então, o que você faria?

O que você faria se soubesse que alguns alunos não fazem prova porque lhes falta material adequado e que são excluídos da Educação Física, da aula de música ou mesmo do recreio? O que você faria se eu te dissesse que muitas escolas negam a matrícula de um aluno já pensando nos efeitos de sua reprovação no Enem? O que você faria se soubesse que muitas famílias não tiram seus filhos da escola, a despeito do péssimo serviço recebido, porque elas têm medo (morrem de medo) de escolas como a sua lhe negarem a matrícula?

E se eu te dissesse mais, que inclusão não é bondade, nem caridade, e que aceitar aluno com deficiência é lei, tão lei quanto não roubarás. Aí, você vai e fica repetindo, com cara de espanto, que “não sabia”. E, no fundo (ou no raso mesmo), fica pensando o que seria melhor: a escola cumprir a lei ou seu filho se dar bem no vestibular – como se as duas coisas fossem incompatíveis. Nos seus pensamentos, passaram longe a diversidade, o respeito, a ética, um mundo melhor. Você não se sente dentro de um sistema que exclui, você não se inclui no ciclo cruel do mundo lá fora. O problema não é seu: a escola que resolva isso. Enquanto não resolve, vida que segue.

Bem, desculpa aí, mas agora eu te disse.
E então? O que você fará agora que sabe?”

Pois é, esse texto, com duras palavras para as pessoas que lêem, relata exatamente a dura realidade que passam milhares de pais de crianças com alguma deficiência. Pais cansados e que praticamente imploram o direito do filho de estar em uma escola, inseridos em um contexto social que lhe é garantido por lei.

A sociedade precisa ur-gen-te-men-te mudar o olhar! As crianças com deficiência estão aí e precisam estar nas escolas. Até quando serão tratadas como uma inutilidade pública?

Educação inclusiva significa educar todas as crianças em um mesmo contexto escolar. Com a inclusão, as diferenças não são vistas como problemas, mas como diversidade. É essa variedade, a partir da realidade social, que pode ampliar a visão de mundo e desenvolver oportunidades de convivência a todas as crianças.

Eu tenho fé. Minha filha (com Síndrome de Down) não é diferente de ninguém e ainda sonho com um mundo melhor para ela e todas as pessoas viverem. Porém, para que isso aconteça, as mudanças devem partir de TODOS. E agora é a hora.

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