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Engessar uma sociedade perfeita é um erro crasso

Todos temos valores, independente de cor, sexo, religião e deficiência

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(Foto: Arquivo Pessoal)

Quando soube que Lorena nasceria com síndrome de Down, por várias vezes disse que não tinha medo do preconceito, pois sou adulta e sei me defender e que meu medo era pela pequena. Hoje, após esses anos, posso dizer que eu tenho medo do preconceito sim, e muito!
Após escutar frases de pessoas muito próximas a mim, confesso que fiquei sem reação:
– “Ela será um problema para o resto da sua vida.”
– “É injusto a irmã assumir um fardo que é seu.” (referindo-se ao fato de eu falecer e a Marina cuidar da Lorena)
– “Outro dia, no parquinho, tive que ir embora, pois um down encasquetou com meu filho e não o deixava brincar”.
– “Até que eles vivem bastante”
– “Acho normal as pessoas ‘olharem torto’ os deficientes na rua”
– “Fulana mudou a filha da escola, pois como é uma escola inclusiva os alunos especiais atrapalham o ensino dos demais”
Eu juro que não sei o que as pessoas pensam quando proferem frases desse cunho diretamente a mãe da pessoa deficiente em questão. Antigamente achava que era por pura ingenuidade ou falta de informação. Atualmente sei distinguir muitíssimo bem uma falha na informação, da qual faço questão de gentilmente explicar o porquê do pensamento errôneo, de uma frase preconceituosa.
Sabem a canção da Cássia Eller em que ela diz: “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”? Tem horas que me vejo exatamente desta forma porque penso: “Gente! Será que escutei isso mesmo? (cara de muito espanto)” É normal olhar torto um deficiente na rua? As escolas inclusivas atrapalham mesmo o ensino dos “que não tem nada?” Socorro! Quem mundo é esse que estamos vivendo?
O que mais me entristece são as novas gerações que estão aí. Crianças aprendendo com esses pais a viverem em um modelo de educação que nada mais passa de discriminatória e desserviço para uma sociedade igualitária. Lutamos por uma escola inclusiva ao mesmo tempo em que temos pais de alunos reprovando a presença das pessoas com deficiência em mesmo ambiente. Tanto esperamos que todos sejam tratados da mesma maneira enquanto os próprios pais retiram os filhos do parquinho, pois “um down” estava atrapalhando a brincadeira….
Muitas vezes penso que Lorena não vai conseguir ver um mundo melhor, o mundo que ela merece viver. Mesmo assim, luto diariamente pelo direito dela de ser respeitada. Todos nós temos valores, independente de cor, sexo, raça, religião, deficiência, etc. Engessar uma sociedade perfeita é um erro crasso.
E para finalizar deixo um recado para as pessoas que me disseram as inúmeras frases sem a menor propriedade, recado esse que na realidade deveria ter dito já no momento que as escutei, mas o espanto é tão grande que fiquei muda: definitivamente o seu filho não é melhor que o meu, eles são iguais, eles são pessoas. Aprenda isso.

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