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Como proibir uma palavra

Que possamos permitir que o mundo e nós mesmos sejamos mais infantis, sensíveis, honestos, e fortemente frágeis

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Foto: Shutterstock

Há algum tempo, um bom projeto de lei foi aprovado: a lei da palmada.
Em crianças não se bate nem com uma flor.
Embora eu ache que em adultos também.

Sou super simpática a este intento, assim como outras legislações, por exemplo.
Quando precisei estudar para concursos públicos descobri as maravilhas da legislação do sistema único de saúde.
Me apaixonei. Até conhecer e trabalhar em alguns postos.

Leis não funcionam? Funcionam.
Pessoas não funcionam.
Palavras não funcionam.

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Junto com a legislação que impede a violência física contra a criança deveríamos ter criado o impedimento da violência verbal.
Sim talvez não funcionasse, mas poderia fazer pensar.
Mas se um tapinha não dói e foi sem querer imagina pensar antes de dizer.

A palavra mata. A palavra dói. A palavra castiga. A palavra maltrata.
A palavra, como bem dizia minha mãe, pode machucar mais que um tapa.
As crianças em especial, ainda não sofreram um processo de adulteração da sensibilidade.
Sim adulteração.

Quando acreditamos que somos adultos tendemos a perder nossa sensibilidade, nossa leveza, nosso riso franco e honesto, nossa empatia para com o outro.

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Foto: Shutterstock

O filósofo Nietzsche chamou este processo de “moral escravizante”.
Recorremos todos a moral da maioria para nos defendermos de nós mesmos em nome da maioria que, ao contrário das crianças, acreditamos precisar pertencer.
Um bom comportamento geral, uma descaracterização geral, a perda da inocência, em nome do medo.
Medo de ser o que se é.

Medo que, muitas vezes, imputamos as crianças até elas acreditarem por nossas palavras duras, por algum tapa sem querer, que nós os adultos sabemos o que é certo, o que é errado e como deve ser.
Medo que adultera uma multidão de seres humanos e os torna apenas mais um.
Medo que nos faz esquecer que uma palavra pode machucar mais um coração sensível do que um tapa.
Medo nosso, de sermos quem somos, que passamos adiante.

Que possamos sentir o que sente uma criança, que possamos ser mais simples como uma criança, que possamos permitir que o mundo e nós mesmos sejamos mais infantis, sensíveis, honestos, e fortemente frágeis.
Humanos, apenas humanos que podem morrer por dentro, com uma só palavra.

Cuidem de si, cuidem de sua e de suas crianças.
Pois, como me dizia uma poeta, o amor está sempre por um fio.
Felizes dias e um ano muito infantil, com muitas brincadeiras, piadas, e poucas palavras.
Um beijo meu e do Pedro