Colunistas

Transplante de Pai

"O primeiro transplante parece ter vingado, embora o órgão-pai transplantando não tenha tão claras as suas funções"

Coluna Cris Guerra

Para alguns, faz muita falta um fígado que funcione perfeitamente, um coração no tamanho certo, um rim que filtre direitinho. A meu filho falta o pai, que lhe foi amputado antes mesmo que nascesse. Por um tempo, Francisco chamou de pai o homem com quem me casei quando ele tinha 4 anos. Sem filhos, Edmundo se esforçou na atuação, até conseguir acreditar nessa paternidade de doador.

O transplante pareceu vingar, até que nos separamos. O tempo mostrou que aquela não era uma adaptação milagrosa, e sim uma prótese. Corria tudo aparentemente bem: ele se responsabilizou financeiramente pelo Francisco, fez promessas, implantou sonhos dourados com os quais Fran passou a contar. Quando um outro marido chegou, Francisco viveu um considerável conflito. Como assim, justo agora chega aquele que pode ser um pai de fato, se, ao menos nominalmente, ele já tinha um? Para mim, a admiração e o encantamento em ver uma família finalmente sendo construída esbarravam em uma certa impressão de artificialismo. Talvez por ter me acostumado a uma sensação de não merecimento.

Anúncio

FECHAR

Edmundo nunca foi perigo para Francisco, pois nunca mostrou empenho verdadeiro para lhe “roubar” a mulher-mãe. Já Alfredo vinha como ameaça real – resolveu disputar com Francisco a mulher da casa, como criança que briga pela posse da bola nova. Se era um homem competindo com o menino pela mulher ou se um novo menino disputando a mãe, isso renderia algumas sessões de terapia. Para a mãe, a dificuldade era saber como encaixar esse novo pai recém-empossado, dada a sua falta de experiência no assunto – não havia criado Francisco ao lado de um, embora tenha sido esse o seu desejo. Freud se deliciaria com o caso.

Nunca me apeteceu ser homem com meu filho. Mas, se a mim restou fazer as vezes de pai e mãe, me iludi com a possibilidade do troféu. Francisco desejou o pai, mas não o homem que veio com ele – seria bobo de querer pacote completo, já que pegou a embalagem aberta, sem uma parte do conteúdo? Como explicar os ciúmes de cada namorado pregresso e a exceção que resolveu abrir justo para Edmundo, por motivos aparentemente inexplicáveis? Foi indolor chamá-lo de pai, coisa que fez sem que solicitássemos – foi Edmundo que adotou o sonho do novo filho e se esforçou para internalizar o papel, embora sem muito talento para algumas cenas.

Alfredo não respeitou o tempo: abusou de uma autoridade não conquistada, até ser abortado do projeto. Restaram de novo mãe e filho, com eventuais participações de um pai cultivado quinzenalmente.
Dentro e fora de mim, o caos instaurado. O primeiro transplante parece ter vingado, embora o órgão-pai transplantando não tenha tão claras as suas funções. O segundo foi prótese precoce – se adiantou em se ocupar do que não exatamente lhe foi pedido.

No silêncio de uma dor imposta pelo mundo, a verdade pareceu gritar: seria essencial um pai na ativa, ou a figura do pai morto não faria o seu papel? Francisco tem, sim, o pai. Chama-se Guilherme, e infelizmente não pode estar aqui agora. Se pudesse, estaria inteiro. Há quem nasça sem pernas. Francisco nasceu sem pai. Talvez seja genético – à minha mãe, avó dele, também faltou um pai para caminhar. Mas ela andou, e foi longe, sem nunca lançar mão de prótese alguma. E que grande mãe ela foi.

Cada um com sua história. E eu me pergunto se meu pai vivo, com o que lhe faltava por dentro, foi de fato um pai presente.