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O dia em que me deitei no meu colo

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(Foto: Shutterstock)

Eu havia comprado somente uma chupeta e pronto. Montei todo o enxoval do bebê com a certeza de que ele não precisaria dela. Apertadinhas no útero junto com Francisco, alojavam-se algumas convicções. Ele não tomaria leite que não fosse materno, beberia tudo em copinhos desde o desmame, não comeria em lanchonetes de fast food e, principalmente, não faria birra no shopping – ambiente que, aliás, ele raramente frequentaria, mesmo tendo uma mãe habitué.

A gravidez transcorreu tranquila, exceto por um detalhe: a vida abortou o pai do menino. Com ele morreram quase todas as certezas, menos uma: viver não tem controle-remoto. Dois meses depois, Francisco nasceu saudável e cheio de opinião. Talvez, por algum tempo, ele é que tenha sido meu pai. Me aconcheguei em seus braços a fim de não sentir a dor. Funcionava. Mas tempos verbais não são eternos: eu sabia que, cedo ou tarde, eu tinha de ganhar o mundo.

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Aos 45 dias de licença-maternidade, meu chefe me chamou para voltar ao trabalho, num discurso empostado como o de um vilão de novela. Eu era diretora, ele frisou. Poderia dizer não, sem perder o emprego imediatamente. Mas isso pesaria mais tarde, e eu também não tinha mais meus pais como retaguarda. Voltei para o trabalho como um sapo que caminha em direção à boca da cobra. Quarenta dias e um estoque de mamadeiras depois, meu leite secou completamente. Francisco me trocou pelo Nan sem esboçar sofrimento algum. Na casa da minha sogra, dei a notícia como quem conta uma morte repentina. Vovó Déa abriu um sorriso de orelha a orelha: “Então ele já pode passar a noite comigo!” Foi impossível não sorrir.

A lição daquele momento era simples: nossos filhos não nos pertencem. O que significa que eles também não são nossos donos. Ufa! Passei a prolongar minhas idas ao supermercado. E como essa liberdade me fez bem – eu precisava ser livre para chorar também.

Francisco foi um bebê saudável e feliz, acompanhado de uma mãe exausta que sorria na mesma medida em que chorava – equilíbrio essencial para a nossa sobrevivência. Na enorme mala de mãe iam, no mínimo, cinco ou mais chupetas coloridas. Deixei o sofrimento para as horas inevitáveis e segui com o mínimo de culpa – acho que nunca deu tempo de sentir. Como destinos do fim de semana, tínhamos a casa da Vovó ou de alguns amigos e, pasme, restaurantes de shoppings – pelos quais ele podia dar seus primeiros passos cercado de segurança enquanto a mãe saboreava por alguns segundos uma garfada de risoto.

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(Foto: Shutterstock)

Um dia, me descobri diante de uma vitrine de brinquedos, ruminando a dúvida entre um carrinho que anda em superfícies de metal e o que muda de cor em contato com a água gelada. Eu havia me tornado criança de novo – dessa vez um menino, pra variar. E é com os pequenos olhos dele que passei a ver o mundo – não tinha reparado o quanto era divertido.

Passei a entender muito sobre super-heróis. E explicava para as amigas que o Ben 10 na verdade se chama Ben Tennyson e usa o Omnitrix para salvar o mundo, transformando-se em dez espécies alienígenas diferentes, dependendo da ocasião.

Eu compreendia o Ben 10, já que também me transformava em muitas. Ao sair de casa carregando a bolsa, a bicicleta e o brinquedo, eu era a Mulher Maravilha. Ao volante, quando Francisco pedia a chupeta, entrava em ação a Mulher Elástico. E mesmo que eu deixasse escapar um Incrível Hulk quando ele aprontava as dele, na volta pra casa eu carregava o cansaço e as sacolas com a eficiência do Homem-Aranha. Finalmente, ao me jogar na cama tarde da noite, eu revelava minha identidade exausta e secreta. Até ouvir o choro dele no quarto ao lado. Eu voava até lá como o Super-Homem. Depois voltava a dormir.

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Chegou a hora de voltar ao trabalho após a licença-maternidade. E agora?

Francisco tem hoje 8 anos. Toda manhã, eu o levo a pé para a escola. Andamos duas quadras, eu coloco a mochila finalmente em suas costas e o estimulo a atravessar a rua sozinho. “Amo você, filho”, é o que digo todos os dias, depois do beijo. E o observo caminhando feliz, a mochila quase do seu tamanho. Ele sai saltitando, a cabeça já na próxima brincadeira com os amigos. E assim, numa manhã qualquer, percebo que não sou nada menos do que a melhor mãe do mundo.

Até descobrir mais adiante que ele é capaz de viver perfeitamente sem mim. Nesse aprendizado de desapego mora a beleza do amor de mãe. Tomara que ali more também uma mulher feliz, devidamente acolhida por si mesma.

Cris Guerra vai  falar sobre o tema “Mãe não é um bicho frágil” no nosso Seminário Internacional “Mãe também é gente” , que ocorrerá dia 15 de maio no WTC (World Trade Center São Paulo), na zona sul de São Paulo. Inscreva-se aqui.

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