Colunistas

Meu companheiro de viagem

No aeroporto, na rodoviária, na estação, você vai identificar no outro o que há em si mesmo

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(Foto: Shutterstock)

Preste atenção neste cenário de pessoas em constante movimento, filho. Aqui elas vão e vêm, se despedem ou se reencontram. Se você observar um pouco, vai perceber como cada uma dessas pessoas é um espelho seu. Cada personagem aqui colocado ao acaso desperta em nós a emoção que é descobrir no outro semelhanças. E é na semelhança que amenizamos a nossa sensação de solidão.
Sim, filho, um dia você vai descobrir que somos sós. Sozinhos chegamos ao mundo e sozinhos também partimos, embora alguns momentos amenizem essa impressão.

Você vai entender isso quando escolher viajar em sua própria companhia. Uma pequena ponte aérea será o suficiente para colocar você diante de si mesmo e de seus silêncios. Nesses momentos, será inevitável assistir à conversa do casal ao lado. Aos olhares entre mãe e filha depois de uma discussão cotidiana. Ao casal que nada vê em volta, pois está visivelmente em lua de mel. Ao velhinho que se movimenta com dificuldade e para quem você terá vontade de carregar a mala. No aeroporto, na rodoviária, na estação, você vai identificar no outro o que há em si mesmo. Uma dor vai lhe falar sobre quem você deixou para trás. E ao ver os abraços alheios vai latejar a falta deles – mesmo que o próximo encontro seja em poucos dias.

Viagens nos lembram o que queremos esquecer, filho: estamos aqui só de passagem. É como se a nossa vida, a vida de cada um, fosse como uma linha de ônibus. Tem gente que embarca com a gente no primeiro ponto e fica até o último. Tem gente que embarca no meio do caminho e logo desembarca, já deixando saudade. Cabe a nós desfrutar a companhia de cada novo passageiro. Compartilhar histórias com um, ceder lugar para outro, dar um abraço, indicar um caminho. O fato é que depois que um passageiro desce, por mais doloroso que seja para quem segue, a viagem continua. E será a sós, na saudade do outro, que caberá o encontro, muitas vezes evitado, com a pessoa que veio passar o resto da vida em nossa companhia: nós mesmos.

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Não me peça respostas, filho. A maior parte delas eu não tenho. Estou na estrada, assim como você. Nem sempre sei qual é o caminho mais seguro, faço escolhas erradas e às vezes não sei nem para onde estou indo. Mas não largo a sua mão.

Observe, contemple, sinta. Não tenha pressa de chegar. Sabe as pessoas que vão entrar e descer do ônibus ao longo do caminho? É feita delas a vida, meu amor. No afeto você vai conhecer inúmeros destinos, sem nunca precisar chegar.