Colunistas

A torta de morango

A chef Bia Goll conta sobre sua deliciosa iniciação no mundo das receitas. Suas memórias não param no sabor azedinho do morango: passam pela experiência de buscar o leite, os ovos e acompanhar o crescimento das frutas

Passaram-se 30 anos e eu não esqueço a “frau Burghardt”.  Na verdade eu não me esqueço da imagem dela no jardim plantando e limpando.  Eu lembro dela caminhando com uma tigela de morangos na direção da minha mãe.  Os morangos do meu bolo de aniversário.

Durante o ano inteiro eu ia para a escola e passava na frente da sua casa. Ficava feliz vendo ela de avental cuidando da horta e dos morangos.  E muito bem!

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Eu salivava lembrando do chantili que a minha mãe batia fresquinho  com nata e açúcar para cobrir o bolo. Nata que a gente tirava com uma colher de cima do leite, de manhã cedo, depois do leite ter ‘dormido’ numa larga bacia.  Leite esse que eu tinha ido buscar no dia anterior de bicicleta e leiteira de metal  lá no vizinho da rua de baixo. Aquela leiteira que às vezes soltava a alça, por causa das minhas estripulias na bicicleta,  e esparramava o líquido fresquinho na rua de barro. O que eu ia dizer pra minha mãe? E o que eu e meus irmãos teríamos no café da manhã? Minha mãe sempre dava um jeito, nunca faltava nada.

Quando chegava o mês de maio, eu ficava ainda mais atenta ao quintal dela. Será que tem muito morango esse ano?  Vai ter pro meu bolo?  Tomara que tenha alguns bem grandões, suculentos, azedinhos e doces. Eu não via a hora!

No dia certo, eu chegava da escola e minha mãe já estava me esperando para irmos juntas buscar 2 kg de morango. Levava a bacia comigo, mas no meio do caminho minha mãe assumia essa responsabilidade porque tinham muitas pedras para serem chutadas, galhos para tocar, borboletas para perseguir e crianças da vizinhança para provocar ou ser provocada.

Lá vinha a frau Burghardt com os nossos morangos.  Elas conversavam um pouco, eu olhava o jardim, ficava encarando de lado os dois enormes cachorros, travando um duelo visual e imaginando um ataque que nunca aconteceu.

De volta à nossa casa, eu passava no galinheiro, pegava os ovos e começava o ritual de lavar os morangos, escolher os maiores e mais vermelhos para a cobertura e os menos afortunados para o recheio.  Não podia roubar nenhum! Mas minha mãe sempre separava alguns para a gente comer na tigelinha salpicada de açúcar, ou para beliscar antes da festa e suportar a espera sem roubar aqueles maravilhosos da decoração.

Alguns eram triplos, até mesmo quádruplos. Para mim aqueles tinham que ficar bem no meio do bolo junto com a vela, mas desconfio que minha mãe gostava mais dos formatos  tradicionais.

Eu acompanhava cada detalhe: a massa sendo batida, a neve se formando, o ponto do chantili.   Lambia todas as bacias e espátulas e até dividia com meus irmãos.

Quando o bolo saía do forno,  tinha que esperar esfriar e então minha mãe fazia um corte no meio para o recheio ,  começava a montar e decorar até ele ficar perfeito, como em todos os anos.

Durante a festa, eu brincava alucinadamente e me esquecia dele.

Mas na hora do parabéns meu peito não tinha espaço para tanta alegria com aquela visão maravilhosa, aquele objeto branco com pontos vermelhos, meu bolo de morango com chantili!

Os morangos quádruplos eram meus, sem dúvida! E tudo era perfeito e a vida é bela, só existe o amor e está tudo bem.

Essa maravilhosa sensação está comigo até hoje e estará para sempre. Uma linda marca na minha alma.

Não sei ao certo qual detalhe torna tudo tão especial, mas eu não mudaria nada:

O meu cuidado o ano inteiro com o quintal da vizinha, buscar o leite de bicicleta, recolher os ovos, escolher os morangos, bater o bolo junto com a minha mãe, compartilhar a massa e moranguinhos rejeitados com meus irmãos, tudo isso me enche de emoção. O sol brilhava e sentíamos como éramos felizes.

Que delícia eu ter uma família que me ensinou que a vida é mágica, vivendo ela comigo!